Sábado, Fevereiro 02, 2008

O COMENTÁRIO QUE JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS NÃO PUBLICOU - OU: "O JORNALISTA É ALGUÉM QUE SAI DA FACULDADE SEM SABER FALAR SOBRE NADA, MAS QUE TRABALHARÁ FALANDO SOBRE TUDO"

Em meio à atual crise na polícia fluminense, o que segue seria inequivocamente uma bobagem, uma perfumaria, quase um luxo. Em momento no qual tanto se joga e se decide, cada caracter digitado aqui ou em qualquer outro blog, site ou editor de texto deveria ser precedido de uma reflexão fundamental: o tópico que proponho é mais urgente que a discussão já existente? Toda frivolidade, toda picuinha, toda crônica de costumes deveria ficar em suspenso, esperando o desenlace da coisa - ao menos no Rio de Janeiro, para não dar também ao caso proporções de recessão americana. Mas o fato objetivo é que não fica; apesar de tudo - e a referida crise é apenas a parte mais evidente e atualmente mais midiática desse todo -, a sociedade insiste em manter o passo, insiste na crença de que tudo segue, insiste na crença de que, afinal, é Carnaval. O lado negativo dessa alienação é óbvio e transparece com maior clareza a cada eleição, a cada estatística referente a nossos indicadores sociais - embora possa também ser percebido sem dificuldades no dia a dia, nas relações pessoais mais distantes da frieza dos números. Mas há também um lado positivo na coisa: essa inércia impede ao mesmo tempo a revolução e a anomia, a mudança e a desistência. Fosse talvez mais consciente em relação aos grandes temas nacionais, nossa população poderia tanto irromper em uma fúria súbita - e provavelmente sanguinária - quanto se entregar absolutamente, abandonar a vida cotidiana que é, afinal, a vida. Para o mal e para o bem, seguimos: seguimos com Big Brother, com a domingueira televisiva, com o futebol - e estamos tão errados quanto certos nisso. O fato objetivo, porém, é que seguimos. E é por isso que também seguimos - eu inclusive - com Joaquim Ferreira dos Santos, o cronista da frivolidade em O GLOBO.
Joaquim Ferreira dos Santos, para quem não conhece, é o responsável último pela coluna "Gente Boa", publicada de domingo a domingo no Segundo Caderno - além de autor de uma outra coluna na última página desse suplemento, acredito eu que às quartas-feiras, talvez às quintas. Escritor razoável - o que se depreende mais dessa coluna semanal do que da coluna diária -, Joaquim se dedica fundamentalmente a dois temas: a crônica de um Rio que passou - exercitada fundamentalmente na coluna semanal - e a leve ironia em relação ao mundo das celebridades instantâneas, tema que tem no próprio O GLOBO outro e mais explícito representante, o colunista Artur Xexéo. Nesse último exercício, Joaquim parece querer conferir uma gravidade à futilidade, tentativa sempre complicada. Ele, assim como Xexéo, parece querer denunciar exatamente "o ponto a que chegamos", quando a fama decorrente de algum feito distintivo se torna a fama pela fama, o sujeito é famoso meramente por ser, por ter aparecido nesse ou naquele programa de tv, fundamentalmente, na maioria das vezes fazendo algo bizarro ou absolutamente sem sentido - como é o caso dos intermináveis dias de conversa estúpida no Big Brother, talvez o título de atração televisiva na história que mais vilipendia a sua referência original, em última instância o excelente 1984 de George Orwell. Nessa função, Joaquim é também bastante razoável - até por não ser trabalho que exige muito, tantas são as notícias bizarras a comentar e tantos parecem ser (aqui segundo Xexéo) os assessores de celebridades dispostos a divulgá-las. O problema é quando Joaquim pretende alcançar uma altura minimamente mais séria, quando pretende sugerir em notinha algo um pouco mais discutível.
Foi o que Joaquim tento fazer nessa quinta-feira que passou, na notinha que segue na íntegra:

"A GEOGRAFIA PIROU
O filme 'Ainda não sei o que você fez no verão passado" passava no Universal Channel, 0 43 da Net, quando uma personagem da trama recebe telefonema de uma rádio com a pergunta 'Qual é a capital do Brasil'. A moça pega um saco de café, lê o invólucro e responde vibrando que 'Rio é a capital do Brasil'. Vibrando mais ainda, o locutor diz que ela acertou e acabou de ganhar uma passagem para as Bahamas. Esses americanos não decepcionam quando a matéria é geografia"

Diante do absurdo, escrevi o seguinte e cordial e-mail, também reproduzido na íntegra aqui:

"Joaquim,
Você errou feio em nota desta quinta-feira. O filme do Universal Channel ao qual se refere é "Eu ainda sei o que vocês fizeram no verão passado", seqüência de "Eu sei o que vocês fizeram no versão passado" - e não "Ainda não sei o que vocês fizeram no verão passado", como você escreveu.

Além desse erro menor, a nota toda se baseia em um equívoco: tivesse visto mais um pouco do filme - realmente um sacrifício, o filme é ruim mesmo para um fã de terror como eu - perceberia que o dito telefonema da rádio foi um trote montado pelo psicopata do filme para atrair a personagem principal a uma ilha, na qual ele pretendia matá-la. O trote é descoberto pela personagem exatamente quando - já fugindo do psicopata - ela acha um globo terrestre no saguão do hotel da ilha em que se hospeda e confere que a capital do Brasil é... Brasília. Ou seja, o psicopata aceitou "Rio de Janeiro" apenas porque queria vê-la na ilha de qualquer jeito.
Um abraço,
Felipe Svaluto Paúl"

Enviada para o e-mail citado no rodapé da coluna, essa mensagem deve ter chegado ao seu destinatário. Apesar disso, não houve qualquer comentário a respeito nas colunas de ontem e de hoje.
Retomando o início desse texto, o leitor pode estar se perguntando: "Felipe, o que há de relevante nisso? Não seria melhor escrever sobre a crise na PMERJ?" Respondo ao caro leitor: seria e é mais relevante, e é exatamente isso que estou fazendo, estou escrevendo sobre a crise na PMERJ, ou ao menos sobre aspecto que já é fundamental em todo o processo - a leviandade com a qual nossos profissionais de jornalismo escrevem coisas. O exemplo do Joaquim, que trata de tema tão diferente, é significativo: como digo em meu e-mail, bastaria ter assistido mais um tanto do filme - ok, mais da metade dele - para que o jornalista recebesse a confirmação daquilo que qualquer espectador médio brasileiro imaginou quando da ligação para a personagem, que a coisa toda se tratava de um trote. Joaquim - ou alguém da sua equipe - não apenas foi enganado pelo truque bobo do horrendo filme, mas o usou em notinha tentando ajudar a confirmar aquilo que é crença absoluta em quinze entre dez representantes da sua espécie, o esquerdista-caviar zonasulense: que os americanos são uns caipiras ignorantes que desconhecem absolutamente o mundo para além do Rio Grande, sua História e Geografia. Nunca se soube ao certo a que eles opõem essa ignorância especial, já que qualquer visita à Europa - para além dos redutos intelectuais e descolados que eles talvez freqüentem - mostrará exatamente a mesma coisa, ou seja, padeiros franceses considerarão em massa que a capital do Brasil é o Rio, e não Brasília; eu mesmo tive experiência com isso, entre meus parentes italianos, em sua maioria pessoas bem mais velhas e com pouco estudo, todos obviamente se surpreenderam diante desse dado que para nós é tão evidente. Mas a soma de caipirice carioca - uma caipirice que realmente afeta cosmopolitismo; viva Evaldo! - com nosso antiamericanismo fundamental resultou em uma crônica estabanada e, acima de tudo, leviana.
Mas que tem isso a ver com a crise da PMERJ, afinal? Tudo, caros. A crise da PMERJ vem repercutindo em uma imprensa acostumada exatamente a essa leviandade, ao "passar de olhos" - do Joaquim no Universal Channel - ou do "ouvir dizer" - de um colaborador do Joaquim, que passou a informação ao jornalista supostamente responsável, que não a conferiu. A leviandade com a qual a nossa mídia trata de assuntos sérios - sim, pois o filme é tosco, mas discutir os conhecimentos educacionais dos americanos é coisa séria, parte fundamental do nosso antiamericanismo - é bizarra, reflexo ainda da falta de profissionalismo e de uma mídia excessivamente galhofeira, de botequim, alimentada no Rio pela velha tradição da esquerda-etílica, prima bebum da esquerda-caviar. Enquanto é para ironizar celebridades, isso serve muito bem; mas quando é para informar qualquer coisa minimamente relevante, tenha sempre os pés atrás - não para se proteger dos "jornalões de direita", como acusam os conspiracionistas da esquerda, mas sim para se proteger da velha e fundamental incompetência.
E lembre sempre do adágio universitário que colabora com o título desse texto: o jornalista é, fundamentalmente, um ser que não é especialista em nada - mas que tem o reconhecimento social que lhe permite falar sobre tudo. E da forma mais porca possível.
Felipe Svaluto Paúl(Isquindô!)

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Terça-feira, Janeiro 08, 2008

O OICULT e a Contracultura na UFF - uma tragédia em cinco atos

No dia 19 de dezembro de 2007, foi lançada na Universidade Federal Fluminense a revista virtual Contracultura, um projeto do Laboratório (reconhecido como tal pelo CNPq) OICULT, abreviação para Observatório da Indústria Cultural. Esse Laboratório tem sua criação devida à professora Adriana Facina, integrante do corpo docente do departamento de História da UFF.

Outro integrante do corpo editorial da Contracultura é Mardonio Barros - segundo o orkut*, namorado (ou esposo, a depender da interpretação) da professora Facina. Mardonio e Facina são co-autores de um dos textos publicados no primeiro número da revista, a peça "Tropa de Elite ou Matou na Favela e foi ao cinema". A professora Facina parece ter achado essa publicação relevante o suficiente para incluí-la em seu Currículo Lattes. Há professores vários - com produção intelectual mais volumosa ou menos interesse em engordar currículos - que deixam passar esse tipo de coisa; mas podemos entender que há quem realmente precise incluir em seu Currículo Lattes um texto escrito com o namorado para uma revista virtual que tem como editores exatamente a própria autora do texto e esse namorado. Talvez esteja apenas me faltando romantismo e a coisa seja nada mais que o fruto do inocente desejo de mostrar para toda a Academia a força da paixão que une os colaboradores intelectuais. Talvez.

O primeiro número da revista Contracultura traz ainda o texto "Sandwich ou sanduíche? Eis a questão", publicado na seção Sabores Populares. O texto é de autoria de Giulia Facina, também conhecida como a filha adolescente da professora Adriana. Giulia Facina tem 13 anos e não, ainda não faz parte do Corpo Editorial da Contracultura. Como também não chegou ainda à Academia, não pode incluir esse texto aprovado pela própria mãe em seu Currículo Lattes. Pena.

A revista Contracultura é hospedada no site da Universidade Federal Fluminense. Desejoso de saber o quanto de dinheiro público há na ação em família, pedi a um amigo que simulasse ser um interessado na publicação e enviasse e-mail à revista. A resposta - também em co-autoria: nos chegou assinada por Facina mãe e Mardonio - é a que segue:

Olá Fabiano,
Que bom que você apreciou a revista. Por enquanto, ainda não temos o objetivo de publicá-la em papel, pois não temos nenhum financiamento. Ela é toda feita na base da militância mesmo. O ISSN está em processo e devemos obtê-lo em breve. Se você se interessar, podemos mantê-lo informado sobre as atividades do Observatório da Indústria Cultural ( http://oicult.blogspot.com/), que é o espaço que articula a revista, entre outras iniciativas.
Um abraço,
Adriana Facina e Mardonio Barros

O caráter transitório dessa desagradável situação é evidenciado e reiterado na prosa algo tortuosa e redundante: "Por enquanto, ainda não temos o objetivo de publicá-la em papel, pois não temos nenhum financiamento". "Por enquanto, ainda": a possibilidade de fazer a revista circular em papel não é negada, pelo contrário - é condicionada à obtenção de algum financiamento.

Ficam as perguntas: caso venha a ser publicada em papel e com financiamento público, o contribuinte passará a pagar pelas receitas da teenager Giulia Facina? A revista continuará publicando - agora com o dinheiro do contribuinte - textos de dois dos seus editores? O pagador de impostos brasileiro passará a financiar o nepotismo contracultural? Ou a revista será subitamente acometida pela seriedade que falta à sua versão virtual?

Só podemos fazer suposições sobre essas questões. Mas podemos recolher mais alguns indícios que ajudem a orientar as nossas especulações.

* - No intervalo entre a escrita e a publicação desse texto, a professora Facina restringiu aos amigos o acesso a suas fotos no orkut. Apesar disso, o "married" continua exposto no perfil - e Mardonio continua listado como uma das paixões da profesora, acompanhado apenas por Giulia Facina.

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Como dito acima, a revista Contracultura é um projeto do Observatório da Indústria Cultural, Laboratório de pesquisa reconhecido pelo CNPq. O popular OICULT tem um blog. Sem querer analisar aqui a qualidade dos artigos nele publicados, acho interessante destacarmos um dos posts mais recentes do site: o texto "Resistência Civil: a instrumentalização clandestina para não ficar tão fora do mundo". O texto é pouco mais do que uma apologia explícita do roubo de energia elétrica (o popular "gato") e do usufruto ilegal e clandestino de tv a cabo - como diz o próprio autor, "o famoso gato-net". Vejam vocês mesmos. Reproduzo abaixo apenas dois trechos:

"Mas nem tudo está perdido. Existem meios de se conseguir certos serviços que nos são negados pela falta de capital. Em épocas de Tropa de Elite, podemos observar um tipo de acesso àquilo que sendo a princípio para poucos se torna de todos, socializado: a PIRATARIA. Tem que ser na base do extra-oficial, não dá pra se prejudicar pela falta de condições. Isso é INJUSTIÇA. Da mesma forma que é muito fácil usufruir dos mesmos privilégios de quem pode ter uma televisão de qualidade. É só fazer um gato, o famoso gato-net."

"Assim, tenho uma opinião bem definida: viva o gato e a pirataria, como forma de protesto, adequação e libertação! Para quem não tem dinheiro é isso, ou se contente em permanecer fora do mundo."

Não existe outra expressão para isso que não "apologia ao crime". O texto não é sequer uma discussão teórica sobre meios de comunicação, concessão de canais abertos ou direitos de propriedade intelectual. É um elogio explícito de práticas criminosas estabelecidas. Pois é isso: o OICULT - digo novamente: um Laboratório acadêmico de pesquisas, reconhecido pelo CNPq - abriga em seu blog um texto que faz descarada apologia ao crime.

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Mas se há algo que não podemos dizer é que esse texto destoa do comportamento da idealizadora do OICULT. No começo do segundo semestre de 2007, a professora Adriana Facina exibiu em uma sala de aula da UFF uma cópia pirata do filme Tropa de Elite. Não recorreu a qualquer desculpa educacional para justificar sua ação; meramente disse que o filme foi vazado intencionalmente. Como observamos, uma suposição dessas já é suficiente para que uma professora doutora use as instalações da UFF - o dinheiro público, meus caros, o dinheiro público - para exibir um filme que sequer havia sido lançado oficialmente. Um filme pirata.

E sim, há testemunhas.

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Sandwich, apologia ao crime, filme pirata... Como posso fechar a narrativa superficial desses gloriosos primeiros meses de OICULT, um laboratório reconhecido pelo CNPq? Com um chamado à revolução, evidentemente! O lançamento da revista Contracultura contou com a presença do rapper "Gas-pra", divulgando seu CD Temeremos mais a miséria do que a morte. Fui pesquisar sobre o rapaz e achei entrevista reveladora. Merece ser lida com calma, mas novamente facilito a vida de vocês e destaco o trecho que mais nos interessa. Seguem pergunta e resposta:

"No CD você fala em "Bonde da Revolução". Você acredita que só uma revolução resolveria os problemas do país? Essa revolução seria armada?
Gas-PA: Eu não acredito que vamos acabar com a pobreza pedindo ajuda aos ricos. Aliás, o problema do Brasil não é a pobreza. É a riqueza nas mãos de um pouquinho só de gente. E esse grupelho não vai largar o osso na base da conversa. Então, que cada rebelde se arme com, como digo na música, as armas que sabe usar."

Pois é. O grupelho, meus senhores, não vai largar o osso na base da conversa. O rapper não diz ao entrevistador que rejeita a luta armada; diz que cada rebelde deve se armar com as armas que sabe usar - talvez a música, a poesia, o hip-hop... Talvez armas de fogo, por que não? Como vimos, ele não negou isso. Afinal, alguém vai ter que tirar o osso do grupelho - e não vai ser "na base da conversa".

Foi esse um dos convidados para o lançamento da revista Contracultura. Foi esse um dos convidados do OICULT, um Laboratório de pesquisa acadêmica - e só mais uma vez, para ninguém esquecer: reconhecido pelo CNPq. Um Laboratório coordenado por uma professora doutora de uma universidade federal brasileira.

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O último ato ainda está por vir. Dependerá das reações - das reações de vocês principalmente, das reações de todos os leitores - ao que foi divulgado aqui. Quem me lê com alguma freqüência percebeu que fugi o mais que pude do meu estilo habitual - e isso não foi por acaso. A intenção aqui foi apenas contextualizar uma ou outra coisa e deixar que as pessoas falassem por elas mesmas sempre que possível - produzir um texto com informações, fundamentalmente. Algumas pequenas informações que ajudam a mostrar um mínimo do que é uma universidade pública brasileira. Algo será feito a partir desse texto? Dificilmente. Mas as informações estão aí. A minha parte foi feita - e continuará sendo feita, na medida do possível.

Afinal, é preciso que haja uma contracultura universitária nesse país.

Felipe Svaluto Paúl(pela revolução que merecemos - e que não é a deles)

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Terça-feira, Novembro 20, 2007

DOIS TEXTOS PUBLICADOS NA REVISTA "A RODA"

(Reproduzo abaixo dois textos meus originalmente publicados no número 5 da revista "A Roda" - publicação dos alunos do curso de graduação em História da UFF)

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O QUE O LIBERALISMO NÃO É – COMENTÁRIOS A PARTIR DE FALA DO PROFESSOR CIRO CARDOSO

Na última edição dessa revista o professor Ciro Flammarion Cardoso foi perguntado, em entrevista, sobre o que de fato significariam os termos direita e esquerda. A pergunta não poderia ter sido mais abrangente: não se referia ao que seriam direita e esquerda hoje, esquerda e direita no Brasil, esquerda e direita quando da Revolução Francesa. Não; a pergunta pretendia uma resposta sobre os significados mesmos dessa divisão clássica do espectro político, sem atentar para uma especificidade temporal ou espacial. Já seria difícil responder pergunta dessas se ela fosse limitada por ao menos um dos marcos que apontei; aí ao menos seria possível refletirmos a partir de afirmações de determinados agentes históricos, sujeitos que identificavam a si mesmos como seguidores dessa ou daquela matiz esquerdista ou direitista – mas ainda assim a resposta seria no máximo parcial, capenga, mesmo vinda de alguém com a erudição notável do professor Ciro. Como foi colocada, a pergunta torna a resposta quase impossível, ainda que pergunta a resposta sejam sim mais do que pertinentes, ao menos pelo tanto de vezes em que nos pegamos pensando a respeito - e mais ainda pela importância fundamental que a divisão apresentada ainda assume nas práticas e discursos políticos, no curso de História, na UFF, no Brasil e em todo o mundo, a despeito de uma aparente diminuição nos debates propriamente ideológicos, em prol de consensos em torno de um suposto “centro” político pragmático e tecnicista. E foi baseado nesse entendimento que também é meu – a importância atual dessa discussão – que entrevistadores e entrevistado emitiram respectivamente a pergunta clássica e uma resposta possível. Não pretendo aqui entrar propriamente na discussão, embora lateralmente ela vá sim aparecer; meu interesse é partir de algumas afirmações do professor para dizer o que uma determinada doutrina política – o liberalismo – não é. Ciro falou como um marxista renomado; eu falarei como um liberal em formação. Peço desde já perdão ao professor – e aos luminares da filosofia política, liberais inclusive – por qualquer falha decorrente de minhas próprias limitações e lacunas. Faço um esforço que é político mais do que científico; seria preferível que pessoa mais qualificada o fizesse – ocupo esse espaço apenas porque esse hipotético sujeito liberal ainda não se mostrou disposto a escrever para nossa revista.

Primeira questão, a explicação mesma do meu texto: o liberalismo é de direita ou de esquerda? Ele é de direita, de esquerda e também muito pelo contrário. É interessante como o próprio professor Ciro parece entender essa peculiaridade do liberalismo quando diz “(...) O típico da direita é exatamente o contrário, por isso seus membros são chamados de conservadores”. O professor não inclui os liberais entre os direitistas, ao menos não aí – será apenas mais adiante que equiparará o neoconservadorismo e o neoliberalismo como expressões ideológicas de uma nova direita. A posição do professor se coaduna com a leitura marxista: filho mais velho da modernidade, o liberalismo seria uma força progressista ou reacionária de acordo com as estruturas que combate, de acordo com a classe a qual se opõe – o liberalismo teria sido progressista ao combater os privilégios feudais, o Antigo Regime, o Estado não-laico, a servidão; seria reacionário ao sustentar a exploração do homem pelo homem, rejeitar ações governamentais tidas como socializantes, insistir em uma meritocracia regulada pelo mercado etc. Não é preciso dizer o quanto tais concepções podem variar em experiências históricas concretas – no Brasil Império poderiam ser identificados dois liberalismos, um reacionário e direitista e outro progressista e esquerdista; um mesmo liberal no Brasil contemporâneo poderia aparecer como esquerdista ao defender a legalização das drogas e como direitista ao discursar em prol da privatização dessa ou daquela estatal... Os exemplos não faltam à mente do estudante de História experimentado. Mesmo os liberais assumem diferentes posições quanto à questão: há os que se consideram direitistas, há os que se dizem esquerdistas – poucos hoje, principalmente no Brasil – e mesmo aqueles que, seguindo Hayek, pretendem uma transcendência da doutrina sobre essa questão, preferindo opor o liberalismo a duas formas de estatismo, mesmo a duas formas de socialismo para alguns – a forma conservadora e a forma comunista. O terreno é árido e não entrarei nele para além desse mapeamento muito sucinto. O que me importa aqui – e o que motivou esse meu texto – é demonstrar como o liberalismo se relaciona com determinadas características que o professor Ciro atribuiu à direita – considerando que é nesse campo que os marxistas e a esquerda em geral costumam situar o liberalismo e os liberais contemporâneos.

A argumentação do professor se centra em dois pontos, em duas visões que ele atribui à direita: ela teria uma certa visão de natureza humana e – aparentemente como derivado disso – uma certa visão de sociedade. O homem naturalmente tenderia a buscar “propriedade privada, status e poder” e tenderia também a naturalizar uma lógica social que supostamente se fundamentasse sobre essas características. Essa conformação social só poderia ser melhorada, jamais revolucionada a ponto de perder essas características em prol de um igualitarismo. Aqui é preciso que nos perguntemos: o liberalismo se encaixa nessa definição? Sendo o liberalismo tantas coisas, podemos dizer também que se encaixa e não se encaixa ao mesmo tempo. Há sim liberais que continuam partindo da premissa da existência de uma natureza humana, agora assentados menos numa suposta ordem divina ou em direitos naturais e mais em descobertas da biologia, da psicologia evolutiva, das ciências da cognição etc. Mas é preciso atentar que isso justifica liberalismos os mais diferentes – desde aquele que se baseará nisso para naturalizar, sim, “a competição” até um que identificará uma natureza humana essencialmente negativa e mesmo predatória, o que justificaria um Estado o mais limitado possível – no qual os detentores do poder, sempre tendendo à corrupção e ao arbítrio, pudessem prejudicar o mínimo possível os outros seres humanos. Não são todos os liberais – nem uma maioria deles – que identificarão nessas características um corolário que justifique a nossa atual sociedade. Aliás, o que os liberais mais derivam dessas visões sobre a natureza humana é exatamente que a atual sociedade é antinatural, posto que estatista – temos aí um liberalismo profundamente revolucionário, cuja expressão mais radical reside no libertarianismo anarco-capitalista americano, que proporá a simples abolição completa do Estado, a ser substituído pelo mercado como ente fundamental – em alguns casos único – da regulação do social. Apesar de não chegar a esse radicalismo, acho possível sim dizer que o que convencionamos chamar de neoliberalismo se aproxima dessa visão – há algo mais revolucionário na França do que pretender abolir uma verdadeira instituição nacional, a jornada de trabalho das 35 horas semanais? Há algo mais revolucionário na Europa do que pretender demolir – e não apenas reformar, como quis e quer a Terceira Via – um “estado de bem-estar social” quase cinquentão? Para além disso, há sim liberais que não partem em absoluto da existência de uma natureza humana – e nem por isso deixam de atentar para os diferentes problemas que mudanças bruscas (revolucionárias principalmente) trouxeram e ainda trazem para o social. Criticar o Terror da Revolução Francesa como algo inerente a um processo revolucionário que combinou uma massa faminta e utopistas de gabinete é mais uma lição da História que da Biologia. Aí a esquerda é que parece ainda trazer com ela uma natureza humana rousseauniana: basta chamar os bons selvagens à luta e eles farão o que deve ser feito, destruindo tudo e construindo sobre isso o novo. As pilhas de cadáveres dessa visão só começaram a ser construídas pelas guilhotinas: os países comunistas do século XX seriam pródigos na produção dessas “vítimas da História”.

Relativizadas as posições do liberalismo sobre a natureza humana e os corolários possíveis delas, apresentada a saudável – literalmente falando – resistência de tantos liberais a engenharias sociais conduzidas por intelectuais iluminados, cabe ainda um comentário rápido sobre afirmação do professor Ciro sobre uma certa direita contemporânea: diz o professor que “(...) O que há é um avanço muito grande da direita, que já não tem medo de dizer, por exemplo, que o mercado é muito mais importante que a democracia(...)”. A afirmação merece ser relativizada, ao menos pelo peso negativo que a palavra “mercado” tem nos círculos dos leitores dessa nossa revista. O que os liberais dizem é que a democracia não pode ser confundida com democratismo; não é tudo que se torna moralmente legítimo apenas por contar com a aprovação do grosso da população. Há coisas que não devem nem podem ser sequer submetidas ao escrutínio das massas; não há sentido em um referendo sobre exterminar ou não todos os judeus – ou negros, ou homossexuais, ou marxistas. Menos sentido ainda há quando uma certa elite política se arvora no direito – sustentada por um autoritarismo – de realizar extermínio desses grupos em nome de massas que supostamente clamariam pela limpeza. Da mesma forma, direitos como o de livre expressão de idéias, de liberdade religiosa, de liberdade de associação política, de trânsito etc. são direitos inalienáveis e morais em si mesmos; evidentemente, um governo pode restringi-los – ou mesmo cerceá-los totalmente – e fazer isso em nome das massas, e em alguns momentos pode até mesmo contar de fato com a aprovação dessas massas. Mas não será isso que tirará o caráter criminoso da coisa, por mais que a legislação tenha tornado a prática correta e por mais socialmente aceitável que ela seja. E é aí que entra o mercado: em diferentes graus, os liberais preferem – baseados em argumentos históricos, econômicos, sociológicos – o mercado ao Estado como garantidor dessas liberdades fundamentais. Há um temor historicamente justificado de que as massas são levadas – muitas vezes exatamente em nome da democracia – a sustentarem toda sorte de ataques a esses direitos. Ditaduras várias – de direita e de esquerda – já nos mostraram o quanto as massas podem apoiar enfaticamente toda sorte de restrições às liberdades e mesmo coisas como tortura e assassinatos sistemáticos de opositores políticos. O liberalismo – a doutrina que garante a todo opositor o direito de expressar-se – tem razões mais do que justificadas para temer a democracia, portanto; o que não significa que pretende vê-la subordinada ao mercado. A maioria dos liberais – eu inclusive – rejeitam o mercadismo máximo do anarco-capitalismo e pretendem ver na prática o que em tese já é garantido pela maioria dos Estados ocidentais, ou seja, a proteção desses direitos fundamentais exatamente dentro dos marcos do Estado e da democracia.

Quando pretendemos discutir coisas desse porte em tão poucos parágrafos é inevitável que tenhamos lacunas várias; tenho certeza que o professor Ciro se deparou com o mesmo problema na entrevista que concedeu, em grau até maior. Estou à disposição para esclarecer a quem quer que seja – na medida de minhas possibilidades – um pouco mais sobre o que coloquei acima. O liberalismo é um projeto civilizacional que, longe de superado, é atualíssimo e viu o sangrento século XX confirmar tantas de suas idéias políticas e econômicas. O século XXI será o século do liberalismo ou será mais um século de barbárie. Conto com todos vocês para a construção diária da sociedade aberta.

Felipe Svaluto Paúl

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UM PROFESSOR DA UFF PODE ENTRAR EM GREVE?

Uma introdução se faz necessária antes de considerarmos a questão da greve em si: é preciso identificarmos no que um funcionário público difere de um funcionário de empresa privada. A diferença fundamental é a seguinte: um funcionário de empresa privada opera sujeito a determinadas circunstâncias de mercado que não afetam em absoluto o servidor público – enquanto servidor, obviamente não enquanto consumidor. Que isso significa? Significa que os vencimentos de um funcionário de empresa privada serão definidos de acordo com uma série de variáveis inseridas na lógica de mercado: ele ganhará um salário tal que ao mesmo tempo permita determinado lucro ao patrão que o emprega e estimule esse funcionário a permanecer naquele emprego e não optar por outro; essa possibilidade de optar por outro emprego está mais ou menos aberta de acordo não apenas com as habilidades e formação educacional do empregado, mas também de acordo com a situação presente do mercado de trabalho, que habilidade é valorada positivamente, quantos indivíduos a possuem, quantos estão interessados naquele emprego possível; o patrão desse empregado terá mais ou menos interesse em mantê-lo nos quadros da empresa também segundo a situação presente do mercado: o quanto aquele funcionário é um diferencial na composição do valor de certo produto ou serviço, o quão ruim seria perdê-lo para concorrente; ainda será preciso considerar – e isso deve ser considerado por patrão e empregado – a demanda atual e as perspectivas de demanda futura para aquele produto ou serviço, o quanto a empresa lucra e pode vir a lucrar, pois uma demanda maior ou menor pode permitir ou dificultar uma maior valoração do trabalho desse nosso empregado. Essas e várias outras variáveis compõem a complexa e mutável equação que define o lugar ocupado por cada um no mercado de trabalho – e o grau de subjetivismo e a importância de fatores como sorte e rede pessoal de relacionamentos dificultam qualquer matematização mais clara dessa equação. Em suma: mesmo em uma sociedade com o mercado de trabalho ainda bastante regulado pelo Estado – como é o caso da sociedade brasileira – a situação do funcionário de uma empresa privada é sempre marcada pela dúvida, pela inconstância, pela possibilidade de se ver desempregado devido a uma mudança em uma dessas tantas variáveis arroladas, muitas das quais escapam em absoluto ao controle dele. Em oposição a isso, o emprego público se caracteriza pela estabilidade. Não é o mercado o definidor da importância daquele serviço oferecido: é a política. Instâncias políticas definiram que tal ou qual serviço é importante por essa ou aquela razão; o Estado considera – como somos uma democracia essa consideração em tese passou e passa o tempo todo pelo crivo das urnas – que é importante que existam universidades estatais, que atenderão a tal público e de tal forma. Para essa universidade serão contratados funcionários cujos vencimentos e condições de trabalho serão também definidos pela política: não serão os beneficiários daquele serviço que dirão através da compra o quanto valoram o produto oferecido, mas sim instâncias políticas, que valorarão menos ou mais esse serviço de acordo com pressões também políticas, exercidas por grupos organizados ou agentes individuais. O resultado disso é simples: enquanto o salário de um padeiro é definido em parte pelas pessoas que compram pão e por aquelas que gostariam de comprar, essa consideração inexiste na lógica do serviço público; o salário de um professor da UFF apenas muito lateralmente – e idealmente – está referido ao valor que a sociedade confere a esse professor, o que seria checado apenas através do processo eleitoral e de mobilizações em prol da redução ou do acréscimo desse salário. O professor da UFF compra pão e influi no salário do nosso hipotético padeiro; mas o padeiro não estudou na UFF, não tem filho que estuda e não considera em absoluto uma pesquisa histórica qualquer como importante para a vida dele. Isso significa mais do que o pagamento por um serviço que não se utiliza e não se considera como essencial ou mesmo importante; significa que o salário de um professor da UFF está relacionado mais à importância que esse professor se auto-atribui e ao quanto estará disposto a fazer essa importância valer politicamente (e o quanto políticos e burocratas considerarão que vale a pena politicamente atendê-lo) do que referido a um mecanismo de valoração dinâmico e cotidiano que funciona a partir dos usuários atuais ou em potencial do serviço oferecido. Podemos dizer o mesmo para as condições sob as quais trabalha, das horas trabalhadas ao material disponibilizado para ele – passando pelas possibilidades de sofrer qualquer coisa em decorrência de um trabalho valorado negativamente.

É essa condição e seus corolários que tornam absurda qualquer greve de professores na UFF ou qualquer outra universidade estatal brasileira. Esses professores optaram claramente por um regime de trabalho regulado por instâncias outras que não aquela cuja lógica - fundamentalmente, como já dito; o mercado brasileiro é muito regulado politicamente ainda - rege a esmagadora maioria das relações trabalhistas no país. Existem professores com formação equivalente submetidos a esse outro regulador; mudar de regulador é possibilidade aberta a todos os docentes uffianos. Se não mudam é porque identificam melhores condições na universidade estatal, condições que vão desde a possibilidade de pesquisarem mais intensamente – pesquisas também submetidas a uma regulação política, aprovadas por instâncias político-acadêmicas sem qualquer questionamento sério sobre o interesse real do nosso hipotético padeiro nelas – até (e como há uffianos gozando felizes dessa condição!) a impossibilidade quase absoluta de serem demitidos, por mais porcos que venham a ser os serviços oferecidos. Todo e qualquer aumento de salário – que não uma mera reposição de perdas decorrentes de inflação – será apenas uma negociação entre dois agentes políticos, um dos quais é exatamente aquele que pretende ver seu trabalho melhor valorado – e ambos discutem essa valoração com dinheiro alheio, o do contribuinte. O povo cuja opinião se ignora – os nossos compradores de pãezinhos – cunhou há sabe-se lá quanto tempo o adágio célebre: a porta é a serventia da casa. Quem não estiver satisfeito com as “terríveis” condições atuais de trabalho tem o direito de tentar a sorte sob o regulador empregatício mais generalizado. Quem se habilita?

Felipe Svaluto Paúl


Domingo, Setembro 30, 2007

O Indivíduo na História: comentários sobre o papel da ação individual no curso dos eventos históricos, a partir de reflexão do antropólogo Marshall Sahlins e ensaio histórico do historiador John Lukacs



(Texto originalmente escrito como trabalho para a disciplina Seminário em Cultura, Mentalidades e Ideologias IV, ministrada pelo professor Mário Grynszpan para o curso de História da UFF - primeiro semestre de 2007)

O papel do indivíduo no curso dos eventos históricos foi diferentemente valorado ao longo da trajetória da disciplina História; essas variações se devem a diferentes formas de se enxergar a produção de verdades históricas, e podemos encontrá-las tanto em um mesmo momento – diferentes escolas e teorias sociais enxergam diferentemente a questão – quanto em diferentes temporalidades – há momentos de maior ou menor aceitação ou ao menos discussão do quanto um indivíduo pode ser responsável por determinados eventos históricos. Faz parte da história da disciplina considerarmos que o indivíduo teve um papel fundamental naquilo que chamamos de historiografia positivista, aquela que se confunde com o próprio surgimento da História como ciência – ou ao menos como algo que aspira ser ciência. Tínhamos então uma pesquisa histórica focada em indivíduos, notadamente os “grandes homens”: os grandes estadistas, grandes artistas, grandes gênios. A história era conduzida por eles – os grandes estadistas, exercendo poder de mando, teriam condições de orientar totalmente as políticas desse ou daquele país, produzir guerra ou paz, prosperidade ou pobreza; os grandes artistas se destacavam da mediocridade de seus copistas, revolucionavam as formas de se fazer arte, mudando conceitos e produzindo novos padrões de belo e feio; aos grandes gênios caberiam os grandes progressos tecnológicos e científicos, frutos sempre de mentes um tanto excêntricas mas sempre privilegiadas, trabalhando quase que em um universo próprio, só deles, alheios ao estéril turbilhão das ruas. Essa perspectiva foi criticada de diferentes pontos ao longo do século XX, por diferentes visões de uma História determinada por estruturas – destacam-se aqui o marxismo e o próprio estruturalismo. Pretender enxergar poder em indivíduos isolados seria se deixar enganar pela ilusão das superfícies; o indivíduo age, assina, mas só o faz de acordo com estruturas anteriores, que o transcendem e – nesse momento – o determinam. A guerra já estava dada: ocorreria porque determinada burguesia nacional precisaria de uma expansão de mercado inviabilizada pelas políticas protecionistas e colonialistas desse ou daquele vizinho; o governante ou estadista, representante dos interesses daquela classe – da qual ele mesmo provavelmente é oriundo – só daria um caráter oficial à decisão que, mais do que tomada às costas dele, muitas vezes não é sequer decisão de fato: algo maior que aquela própria burguesia nacional – um “curso natural da História” – já teria decidido por todos, líder, burguesia, povo. Esse é um exemplo de tantos: aqui temos determinismo econômico de corte marxista, mas poderia ser um determinismo de tons culturalistas, que visse a mesma guerra como inevitável pela importância do caráter bélico na formação identitária do povo agressor, a partir de uma unificação tardia realizada em diferentes guerras contra vizinhos. De toda forma a guerra seria historicamente inevitável. Tais perspectivas foram gradualmente se modificando de forma a substituir “determinantes” por “condicionantes”, de forma que hoje a perspectiva do determinismo absoluto migrou quase que absolutamente da Academia para os manuais partidários de extremistas ideológicos; dificilmente o acadêmico mais simpático a estruturas quaisquer dirá hoje que tal ou qual evento aconteceria de todo jeito, de forma totalmente independente daqueles indivíduos responsáveis por levá-lo adiante – recuperando o exemplo citado, esse historiador provavelmente relativizaria a “burguesia nacional”, mostrando que o líder teria escolhido uma entre várias saídas possíveis ao privilegiar um grupo que supostamente lucraria com a guerra em detrimento de fração dessa mesma burguesia cujos negócios com o país agredido simplesmente deixariam de existir durante o confronto. Já temos aqui um aumento do poder do indivíduo, que se move sim dentro de estruturas mas tem alguma margem para realizar escolhas dentro delas. Somamos a isso a influência da micro-história – que se baseia sim em estruturas, mas que muitas vezes chama a atenção para as formas como indivíduos ou pequenos grupos agem dentro delas, inclusive indivíduos considerados socialmente “subalternos” por aquele historicismo positivista dos Oitocentos – e o aparentemente inesgotável fôlego mercadológico das biografias – mesmo aquelas densas e feitas por historiadores profissionais – entre um público leitor não-especializado e podemos dizer que temos sim um certo ressurgimento de uma perspectiva que dá importância maior ao indivíduo na história, um ressurgir com roupagem e essência bem diferentes daqueles do século XIX mas em alguma medida dando continuidade a uma reflexão brutalmente interrompida pelo apelo político das “grandes visões de mundo” do século XX, notadamente a marxista. Minha intenção aqui é partir de uma reflexão específica presente em texto[i] do antropólogo Marshall Sahlins sobre o indivíduo na História e compará-la com um trabalho[ii] do historiador John Lukacs baseado exatamente na importância de dois indivíduos na definição de determinado evento histórico.

A reflexão de Sahlins parte de dois diferentes times americanos de beisebol, ambos campeões, para chegar a dois tipos de processos históricos, um no qual a importância do indivíduo é fundamental para que possamos compreendê-lo e outro que só pode ser entendido a partir da análise de um coletivo – o time em questão – e valendo-se de explicação que baseada em dados nos permitirá afirmar a superioridade categórica desse coletivo sobre seus adversários. No primeiro caso o campeonato é conquistado por um time oscilante, em ascensão mas aparentemente menos regular que o seu adversário direto; a campanha desse coletivo é marcada por altos e baixos, em percurso no qual salvo em um único jogo anterior à final ele está sempre atrás do primeiro colocado. No segundo caso o que temos é uma liderança inconteste e “de ponta a ponta” do time que viria a ser o campeão; o gráfico que indica a distância do time para seu adversário mais direto é quase linear, temos praticamente duas retas que só se cruzam – e muito rapidamente – no início do campeonato. Sahlins partirá dessas duas trajetórias para fazer – a partir de texto do historiador J.H.Hexter que faz exatamente essa comparação - o seguinte e interessante raciocínio: se no segundo caso a conquista do campeonato pode ser melhor explicada por uma série de dados referentes à qualidade de um coletivo (arremessos, rebatidas, home runs) no primeiro caso só é possível fazer uma análise histórica que leve em conta aquilo que foi certamente o destaque jornalístico do pós-jogo: o home run de Bobby Thomson que fecha a última e decisiva partida do campeonato de 1951 em prol dos New York Giants. É notar que aqui surge um nome, Bobby Thomson, e só então surge um time; por mais que a crônica esportiva – e isso é só suposição minha – pudesse aqui e ali elogiar as virtudes de um time e o próprio Bobby talvez humildemente lembrasse seus companheiros de conquista não há como ignorar o fato de que aquele home run não apenas será sempre a grande lembrança coletiva das testemunhas – oculares, auditivas ou meros conterrâneos contemporâneos – do evento como também será a melhor forma de narrar a história às gerações futuras. E “narrar” é o melhor verbo, em oposição ao “explicar” que cabe mais devidamente ao primeiro caso. Narrar a conquista quase linear do New York Yankees em 1939 seria algo ocioso e mesmo chato, seria narrativa de uma sucessão de vitórias com um ou outro tropeço em nada ameaçador; já a conquista dos Giants em 1951 não pode em absoluto passar sem a narrativa detalhada de um último jogo “páreo a páreo” até o final e desempatado em um lance único e inesquecível. Enfim: Sahlins parece defender que há basicamente dois tipos de eventos em relação à participação dos indivíduos – aqueles nos quais os indivíduos se perdem em algo definido por coletivos e outro no qual o indivíduo sobressai e é o grande responsável pelo resultado final. Será desse segundo tipo de evento que se ocupará John Lukacs em Junho de 1941[iii].

Lukacs escreve de forma bastante direta e não faz rodeios ao afirmar essa sua perspectiva metodológica já na introdução do livro, cometendo até uma flagrante generalização. A citação é um tanto longa mas merece ser reproduzida na íntegra, pela força e mesmo grau de combatividade intelectual que traz: “Em 1941, exatamente a 22 de junho, tudo dependia de dois homens, Hitler e Stálin. Isso em si refuta a opinião corrente dos cientistas sociais, segundo a qual a história, especialmente na era das massas, seria governada por amplas forças materiais e econômicas, não por indivíduos. A Segunda Guerra Mundial não foi somente marcada, mas decidida por personalidades, pelas preferências e decisões de homens como Hitler, Churchill, Stálin, Roosevelt”. Corrijo-me e aponto não uma mas duas generalizações aí. Uma decorre do radicalismo de Lukacs na defesa de sua metodologia: Hitler e Stalin não foram apenas os principais personagens do 22 de junho de 1941; tudo dependia deles. A segunda – a que primeiro me apareceu – refere-se aos “cientistas sociais”: embora seja inegável que a Sociologia pareça ainda mais agarrada a estruturas e menos permeável à recuperação do indivíduo pela qual passa a História é inegável também que “os cientistas sociais” é expressão que engloba uns tantos milhares de pessoas que ao redor do mundo trabalham com perspectivas teóricas e metodológicas as mais diversas, e certamente umas tantas delas encarariam ao menos com um pouco mais de simpatia a leitura do Lukacs. É preciso entender a afirmação também como retórica, como afirmação política de uma concepção acadêmica; mas também não é possível nos valermos disso para esvaziá-la e desde já desmerecermos a pesquisa do autor – é lembrar que John Lukacs é considerado por muitos não apenas um dos maiores (se não o maior) especialista em Segunda Guerra vivo como até um de nossos grandes historiadores contemporâneos.

Cabe uma explicação sobre o que veio acima. 22 de junho de 1941 é o objeto principal do livro de Lukacs, embora haja comentários sobre momentos anteriores e posteriores a essa data, com longa – para as poucas páginas do livro – análise das relações diplomáticas entre Alemanha e União Soviética anteriores a esse dia. A data não foi escolhida ao acaso, muito pelo contrário: marca o início da invasão da União Soviética pela Alemanha, dois países que até então eram ligados por um pacto de não-agressão; marca o que é para Lukacs – novamente ele é direto, categórico e polêmico aqui – a “verdadeira virada da Segunda Guerra Mundial. Mais importante que Pearl Harbor(...)”. E que tem o historiador a nos dizer sobre esse dia? Exatamente o que já foi exposto acima – ele só aconteceu porque de um lado tínhamos Hitler; e só aconteceu da forma como aconteceu porque do outro lado tínhamos Stálin. Lukacs demonstra que o plano de invasão da União Soviética existia para Hitler pelo menos desde julho de 1940, quase um ano antes e também menos de um ano depois da assinatura do pacto de não-agressão entre os dois países, proposto pelo próprio Hitler; existia aí, mas não exatamente antes disso – já era cogitado em Mein Kampf, mas seria bobagem – aqui Lukacs investe contra uma estrutura ideológica – acreditar que seria o “destino” do nazismo atacar a União Soviética, pelo ódio de Hitler ao “bolchevismo judaico”[iv]. Havia sim a idéia de lebensraum e o leste europeu estaria sim destinado ao povo ariano, mas o realismo político de Hitler seria suficiente – combinado com o messianismo e o Reich de mil anos, presume-se – para que ele não iniciasse uma guerra por simples ideologia. O que tivemos foi uma decisão racional – e absolutamente razoável, sob a lógica do ditador: o ataque à União Soviética privaria a Inglaterra (esse sim o verdadeiro inimigo a ser derrotado o quanto antes, o Império então comandado pelo irredutível Churchill) de uma das suas únicas esperanças no mundo – os Estados Unidos seriam a outra, mas contra eles Hitler por ora nada poderia fazer – e obrigaria aquele país a aceitar uma paz negociada com a Alemanha, paz que garantiria a Polônia e a rica Europa Ocidental (lembrando que em julho de 40 Hitler já havia em diferentes graus e formas conquistado a Tchecoeslováquia, Luxemburgo, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Noruega e, mais importante, França) aos nazistas. Foi esse o sentido do ataque concebido com um ano de antecedência: não derrotar o “perigo vermelho” e salvar a Europa Ocidental e cristã – embora assim tenha sido em parte vendido pelo regime e mesmo comprado por algumas autoridades políticas e religiosas – mas sim privar a Inglaterra de um possível aliado e forçá-la a uma paz que Churchill teimava em recusar. O lebensraum conquistado seria uma conseqüência agradável, mas não motivo suficiente para o ataque.

A intenção de Hitler está posta. Mas até onde ela não é – retomando nossas reflexões teóricas – uma mera expressão de uma lógica inerente ao regime? Até onde não é um ataque necessário a um sistema – aqui é importante lembrarmos de Hannah Arendt[v] - que não poderia se permitir a institucionalização, uma queda na dinâmica agressiva e combativa de seus anos de movimento político e paramilitar? A invasão da URSS seria vendida ideologicamente e mobilizaria os alemães contra um novo inimigo do país, mas antigo inimigo do movimento e da ideologia nazistas. E as questões econômicas? O quanto a economia alemã poderia funcionar como uma economia de guerra? Hitler precisava vencer a guerra que havia provocado o quanto antes, isolar a Inglaterra e evitar uma entrada dos Estados Unidos no confronto. Tudo isso é fato e merece ser levado em conta. Mas é preciso considerarmos também a importância de Hitler na conformação dessas mesmas estruturas que agora o impeliriam à guerra – o quanto o que era em 1940 o nazismo não podemos debitar ao gênio de seu Fuhrer? O quanto a economia alemã não foi orientada por decisão dele mesmo, a partir da concentração crescente de poder nas mãos do ditador? Aqui as controvérsias são várias e evidentemente opiniões outras podem ser apresentadas de forma convincente; mas pelas minhas leituras[vi] considero que seria preferível uma abordagem que corresse o risco de pecar pelo excesso ao superdimensionar o papel de Hitler a outra que subestimasse a importância do personagem.

Mas 22 de junho de 41 não foi apenas o dia de Hitler e da Alemanha; do outro lado da fronteira então estabelecida na extinta Polônia tínhamos Stálin e a União Soviética. A análise que Lukacs faz do georgiano diante da Alemanha é clara e implacável: Stálin não mediu esforços diplomáticos para evitar a invasão[vii], e estava a tal ponto convencido da fecundidade desses esforços que ignorou uma série de sinais – uma série realmente impressionante, narrada em detalhados números por Lukacs – que indicavam um iminente ataque alemão. Stálin imaginava – e com razão – que a Inglaterra tinha interesse em atraí-lo para um confronto com Hitler; considerava a ilha imperial isolada e desesperada por um aliado, consideração novamente correta e razoável, como já vimos partilhada pelo ditador nazista. O problema é que tal visão somou-se à conhecida paranóia do soviético e o fez enxergar todo e qualquer comunicado dando conta de uma invasão alemã como algo em maior ou menor grau informado ou mesmo planejado por britânicos, visando gerar um ataque preventivo da Alemanha pela URSS. Como resultado tivemos um Stalin surpreendido na cama pela agressão nazista, acordado por telefonema, vítima de um mutismo, de uma estupefação momentânea – e de uma crise subseqüente, que o fará isolar-se em sua dacha e mesmo a se questionar sobre se teria condições de liderar o país em momento como aquele. Comunicados de diplomatas os mais diversos, de países os mais diversos; aviões alemães cruzando o tempo todo o espaço aéreo soviético, em claras missões de reconhecimento; aumento no número de sabotadores capturados; intensa concentração de tropas na fronteira polonesa: nada disso foi suficiente para que Stálin acreditasse que seria atacado. Para Lukacs, a facilidade com a qual a invasão aconteceu tem um grande – se não único – responsável: Stálin.

E é aqui que retornamos em definitivo ao ponto inicial desse trabalho. A idéia de Lukacs é clara: 22 de junho de 1941 foi um dia no qual o destino do mundo esteve nas mãos de dois homens. Milhões de outros indivíduos já respiravam guerra; milhões já estavam sob ocupação nazista; os poloneses particularmente já sofriam os horrores da “supremacia ariana”, embora o Holocausto ainda não existisse; soldados espalhavam-se pelo mundo em vários fronts, do norte de África a ilhas no Pacífico. Todas essas pessoas tiveram um papel na guerra; mas foram os grandes líderes que orientaram o curso dos eventos. E naquele momento os líderes responsáveis pela invasão e pela a princípio quase inexistente resistência foram respectivamente Hitler e Stálin. Naquele dia os dois mudaram o curso da História para sempre.

Felipe Svaluto Paúl

Julho/2007



[i] SAHLINS, Marshall. “Cap 2: Cultura e ação na história” IN: História e Cultura – Apologias a Tucídides. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

[ii] LUKACS, John. Junho de 1941 – Hitler e Stálin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

[iii] Aqui seria até o caso de nos perguntarmos se Lukacs considera factível alcançar uma verdade histórica a partir de análises de coletivos ou estruturas quaisquer. Não tive tempo de ler o livro teórico dele – O Fim de uma Era -, que só consegui na véspera de entrega desse trabalho; mas li cinco dos sete livros dele editados no Brasil e neles se vê sempre análises de indivíduos, com ênfase nas relações entre diferentes personagens e em comentários por vezes bastante subjetivos sobre as características de temperamento, intelectuais e mesmo morais dessas pessoas e como elas explicam essa ou aquela decisão.

[iv] Aqui não é o caso de analisarmos o pensamento político de Hitler ou a ideologia nazista, talvez dos temas mais controversos da História contemporânea; só cabe seguirmos Lukacs e apontarmos que o ódio ao “bolchevismo judaico” era tanto realidade quanto propaganda e estratégia – Hitler era de fato anticomunista, embora admirasse Stalin e tenha várias vezes se mostrado mais feroz contra a ideologia como forma de conseguir apoio no Ocidente e manter a política de apaziguamento que tanto o beneficiou.

[v] ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras,

[vi] Destaco KERSHAW, Ian. Hitler: um perfil do poder. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993 e o próprio LUKACS, John. O Hitler da História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

[vii] Na verdade, Lukacs mostra que Stálin mais de uma vez cogitou – e fez com que essas cogitações chegassem aos alemães – uma divisão do mundo em áreas de influência entre a Alemanha, a Itália, a União Soviética e o Japão – e proposta semelhante também foi feita separadamente à Itália. Lukacs parte disso e chega a concluir que “se Hitler tivesse detido seus exércitos em 1941, Stálin poderia se dispor a se tornar parceiro subalterno do Fuhrer, na verdade, a lhe entregar parte de seu Império(...)”


Domingo, Fevereiro 25, 2007

A “ciência pura” e o liberalismo: uma interpretação a partir de Henrique Morize*

*- Texto originalmente produzido como trabalho para o curso História do Liberalismo no Brasil, ministrado pelo professor Fernando Faria na Universidade Federal Fluminense, segundo semestre de 2006

A ciência divide-se basicamente em dois campos: o campo da ciência pura e o campo da ciência abstrata. A afirmação não expressa absolutamente a única divisão possível, ou mesmo convencional, da ciência; seria absurdo um estudante de História pretender definição tão simples para conceito tão antigo e tão disputado – inclusive pela própria História, ainda hoje um tanto perdida entre o caráter de Ciência e o de Disciplina, ou mesmo Técnica e, para alguns poucos radicais, não mais do que Narrativa. Mas é igualmente inegável, embora nem tão óbvio, que a divisão acima não só foi como é válida e útil, fazendo parte do vocabulário mesmo dos cientistas, dos praticantes da ciência. Exemplo simples e rápido aqui, pertinente a esse trabalho: a divisão entre ciência pura e aplicada foi utilizada tanto por Henrique Morize - o cientista cujas falas servirão de base às reflexões desse texto – quanto pelo seu biógrafo, se é possível conceituar assim o autor do curto livro – curto, não desinteressante; mas curto o suficiente para não ser exatamente uma biografia digna do nome - sobre Morize aqui analisado, o senhor Antonio Augusto Passos Videira, não apenas para se referir ao tempo de Morize como também em suas próprias reflexões sobre o contemporâneo. Não fosse isso o bastante, e desejoso de mostrar a contemporaneidade talvez máxima da divisão, lembro que a versão em português da Wikipedia – enciclopédia virtual, sensação em meios estudantis de todos os segmentos, gratuita e atualizada ininterruptamente pelos seus próprios freqüentadores – indica exatamente essa divisão – ao lado da oposição entre ciência “natural” e “social” – logo no começo de seu verbete Ciência. Ou seja: num espaço de três séculos – Morize começa a atuar na ciência e na administração de entidades científicas ainda no século XIX; a biografia é de 2003 e a consulta a Wikipedia foi feita por mim há minutos atrás – a divisão que norteará as reflexões desse trabalho é feita por um Engenheiro, Astrônomo e Professor de Física Experimental, o nosso Henrique Morize; por um filósofo e doutor em epistemologia e História das Ciências, o já citado Antonio Augusto; e por um estudante anônimo, usuário da Enciclopédia Livre, a Wikipedia[1]. Ou seja: a divisão apontada foi pertinente ontem e é pertinente hoje, valendo para muito além da mera curiosidade histórica.

Mas que pertinência é essa? Sim, é relevante, é citada, mas o que exatamente expressa? E de que forma será trabalhada aqui, justificando sua presença em trabalho para curso cujo tema a princípio passa tão ao largo da temática própria das Ciências Naturais, nas quais essa divisão se faz realmente pertinente? As perguntas retóricas pretendem expressar possíveis dúvidas de quem chegou até esse momento do texto – e conhece o tema e o desenrolar do curso para o qual ele é produzido; não chegarão a seu sentido mais popular, prestando-se sim para a elaboração do meu discurso, mas em absoluto consideradas como já respondidas. A explicação que acredito demandada é a que segue: a diferenciação entre ciência pura e ciência aplicada coloca alguns problemas para o liberalismo; coloca já de imediato, a partir da definição das duas coisas – da lógica que orienta essa divisão e da lógica que orienta o liberalismo. A lógica que orienta a divisão, e que veremos novamente mais adiante, pode ser simplificada assim: há uma ciência especulativa, uma ciência teórica, voltada para a análise de problemas cujas soluções – se vierem a ser produzidas – não poderão ser imediatamente utilizadas em prol de determinada iniciativa humana, seja ela da parte de quem for, Estado, classe, indivíduo; a ciência pura tem por objetivo único a compreensão da verdade sobre determinado fenômeno, é espécie de ciência pela ciência, parafraseando a relação dos parnasianos com a poesia. Em franca oposição está a ciência aplicada, ou prática, que visa exatamente a resolução de problemas mais imediatos da existência humana, a produção ou aperfeiçoamento de máquinas, de técnicas, de vacinas e remédios; visa atender a um fim específico, determinado por grupos ou instâncias diversos – uma medição de fronteiras em nome de um Estado-Nação, uma fiandeira mais sofisticada e durável em prol de industriais, ou mais segura em prol de trabalhadores -, mas nunca é ‘desinteressada’, como deveria ser, por definição, a ciência pura, cujo interesse único seria quase estético, intelectual apenas, o prazer de ter feito pesquisas, reflexões, cálculos capazes de apontar novos rumos para a compreensão de determinado fenômeno da existência, do Universo. É fato que essa divisão, como acho que fica claro a um contemporâneo letrado que leia isso, guarda o seu artificialismo; não apenas o confirmo como digo que o próprio Morize – o cientista já citado, prosélito da ciência pura, a fonte principal desse texto; chego a ele com mais detalhes em breve – também reconhecia em parte isso, ainda que de forma um tanto contraditória. Mas é também fato, como já apontado, que essa divisão teve e tem o seu lugar no léxico dos cientistas e mesmo dos meros entusiastas da ciência, como pode ter sido o caso do desconhecido que a incluiu no verbete da Wikipedia. Foi pertinente, é pertinente; foi incômoda para o liberalismo, é incômoda para o liberalismo. Por quê?

Como é de conhecimento bastante geral, o liberalismo tem como uma de suas idéias principais a idéia de mercado. Grosseiramente, como o espaço pede, podemos dizer que o liberalismo propriamente econômico – a despeito aqui do artificialismo também dessa divisão – nasce junto com a idéia de mercado[2]. Mercado entendido aqui como um espaço, não exatamente físico, talvez mesmo como um ente, no qual se darão as relações de troca e com capacidade não apenas para servir de instância de regulação para a sociedade como também para suplantar - em eficiência e justiça – o Estado nesse mesma e fundamental função. A partir dessa premissa temos, ao longo da história, diferentes tipos de liberalismos e liberais, de acordo com os contextos históricos de produção da ideologia, da filiação a essa ou aquela escola de pensamento e, seria um pecado maior que o comum esquecer disso aqui, das próprias peculiaridades de cada autor, de cada pensador liberal. O que nos interessa especificamente, daí a citação anterior às duas instâncias, é o peso que cada liberal, que cada tipo de liberalismo – se é que é possível definir isso, mas fiquemos com o senso comum acadêmico por ora -, que cada escola dará ao Mercado e ao Estado no partilhar (ou não) dessa atividade reguladora do social. Aqui nos deslocamos desde o liberalismo-social – que seria um dos ‘tipos’ de liberalismo, que confere peso razoável ao Estado na mediação das desigualdades; o termo vale e foi usado em um contexto histórico específico, o italiano, primeira metade do século XX essencialmente, em parte ainda hoje. Norberto Bobbio seria um liberal-social, mas também o seria sua professora Hannah Arendt ou o nosso Celso Lafer, que foi aluno dos dois? O próprio Bobbio escreveu texto sobre esse ‘tipo’ em A Teoria Geral da Política, ed. Campus, 2000, nele fazendo o termo preceder esse contexto italiano, localizando-o nas inóspitas (para o liberalismo) terras germânicas e conferindo tamanha amplitude ao termo e considerando tantas as suas manifestações que ele pode ser tanto um socialismo democrático quando uma exótica social-democracia liberal – até o pouco conhecido anarco-capitalismo, ou libertarianism norte-americano, que reivindica a supremacia absoluta do Mercado, pregando mesmo a extinção do Estado – sim, forças armadas e fronteiras inclusive – e que busca se apropriar, de forma bastante discutível, de referências históricas tão diversas quanto os Founding Fathers e Ludwig Von Mises. Enfim, a discussão está aí e os liberais têm elementos vários – teóricos, empíricos, históricos, contemporâneos – para que façam suas escolhas; um exemplo de questão que cabe nesse debate? A que nos interessa aqui: a relação entre o Estado e a Ciência. Ao reivindicar uma ciência pura em qualquer contexto já se coloca, inevitavelmente, como e principalmente por que essa ciência – lembrando, que não almeja outro fim que não o conhecimento – seria desenvolvida, e, mais importante numa sociedade moderna, financiada. Ao colocar isso no final do século XIX e –principalmente, quando assume cargos de chefia – no século XX, o nosso Henrique Morize está colocando uma questão fundamental a ordem liberal que, pelo menos – e essencialmente, mas essa é outra discussão – em tese vigorava no Brasil. Ora, se essa ciência não terá seu desenvolvimento orientado por ente, grupo, indivíduo ou interesse algum, aqui cabe tanto o grande inimigo do liberalismo como um todo – o Estado – quanto os heróis escolhidos por essa visão de mundo: o Mercado e aqueles que nele atuam, resumidos simploriamente em fornecedores e consumidores. Questão resolvida; a ciência pura permanecerá assim – pura, intocada, distante tanto do Estado quanto do Mercado, próxima apenas do nobre cientista desinteressado, que vai conduzi-la para nada além da busca pela verdade? Assim seria se não estivéssemos diante de um ligeiro problema: estamos falando de uma sociedade profundamente material, na qual o sustento advém da escolha e desenvolvimento de uma profissão, profissão essa em algum grau – maior ou menor, e mesmo simultaneamente – voltada para o Estado ou para o Mercado; o mundo demanda essa escolha – e demandava ainda mais para um Morize totalmente desprovido do mecenato que poderia sustentar essa vida de pesquisa independente. Morize, cuja trajetória esteve sempre ligada ao Estado – desde a sua formação básica até o ensino, tanto na Escola Politécnica quanto no Observatório Nacional – fará a sua escolha: caberá ao Estado patrocinar a ciência, a ciência pura, desinteressada; patrocinar, não orientá-la – pelo contrário, os cientistas é que deveriam ser chamados a orientar o Estado, técnicos, conhecedores que são de determinados assuntos sobre os quais os políticos nada sabem. Morize defenderá então o que se tornou o paradigma do intelectual brasileiro (inclui-se o artista aqui?): demandará do Estado financiamento, mas também autonomia, uma ‘independência’ profissional paralela à dependência material. Isso orientou e orienta a nossa visão de universidade – grande sonho de Morize era a constituição de universidades científicas no Brasil -, e em parte a nossa visão de cultura e mesmo de mundo. É visão liberal? É visão antiliberal? Parece que os liberais da época se viram diante do mesmo problema, e é impossível, pela escassez de fontes, pelo tempo disponível e pela extensão pretendida para esse texto fechar a questão; é possível dizer que um homem como Joaquim Murtinho mostrava-se algo contraditório quanto ao tema – defendia a privatização das faculdades aqui existentes, mas sabia que o Estado, em algum grau, precisaria colaborar com os institutos agrícolas a fim de modernizar essa atividade que ele tanto prezava. Não há porque imaginarmos que os liberais brasileiros, há época, fossem mais anarco-capitalistas nesse aspecto; mas também não é possível dizer que tinham a defesa da ciência pura exatamente em alta conta, tamanhas as dificuldades de Morize – e de seus colaboradores – na divulgação dessa idéia, que acabou por não produzir resultados práticos os mais vistosos durante sua vida. Se não os liberais, se não os homens de letras e ideólogos, pelo menos a elite cafeeira tinha projetos bem distantes e bem mais terrenos que as observações astronômicas do Morize simpatizante da astrofísica. Na incapacidade de fazer um apanhado razoável do que pensavam os liberais da Primeira República a respeito, passarei na segunda parte desse trabalho a identificar com mais calma o que pensava Morize e seus correligionários – sim, pois travarão uma luta - sobre a ciência pura e como o Estado deveria colaborar com ela, para em seguida, na conclusão, retomar a partir dessa leitura o já apontado e discutido problema que Morize colocava para o liberalismo nessa sua cruzada.

***

Henrique Morize era francês. Era originalmente Henry Morize, sendo ‘Henrique’ o aportuguesamento óbvio de seu primeiro nome – não é mera tentativa de aclimatação, ele chega mesmo a se nacionalizar brasileiro; na verdade, se a expressão – tão comum nas narrativas de tantos e tantos imigrantes – ‘sou profundamente brasileiro’ e suas variações têm a sua lógica – e têm mesmo -, essa lógica funciona sem dúvida para Morize. Lembro que ele aqui chega com 14 anos, fugindo da dupla perda – sentimental e material – sofrida pela sua família com a morte de seus dois pais em apenas uma década, com recursos apenas razoáveis – sabe-se que a tia fundará rapidamente um colégio para moças de razoável sucesso, vê-se que profundamente pobres eles não chegaram -, sendo obrigado a trabalhar e totalmente carente de qualquer educação que pudéssemos chamar de científica. Já aqui destoa do estereótipo do cientista estrangeiro que chegava ao Brasil há época: um sujeito já formado, adulto, de razoável reputação entre seus pares no país de origem e desejoso de uma aventura tropical, um encontro com a ainda exuberante vitalidade ecológica dos trópicos e, de repente, com uma população de mestiçagem singular em uma época de racialismo científico. Morize não: chegará aqui ainda como adolescente e será aqui que fará – integralmente – a sua formação propriamente acadêmica e desenvolverá suas atividades de pesquisa e, porque não dizer, suas atividades políticas em prol da ciência pura no país; normal que nutrisse tão grande apreço pelo país no qual viveu a larga maioria dos seus anos, país que deu a ele, apesar dos inúmeros pesares, a educação científica que tanto o fascinou por toda a vida.

A biografia de Morize a partir da sua chegada ao Brasil não é propriamente movimentada, ou pelo menos não se pode depreender isso do esforço literário -como já dito, não muito profundo ou mesmo ‘biográfico’, pelas limitações mesmas da coleção editorial em que se insere – feito pelo citado Antonio Videira: Morize se instalará com a família inicialmente em Santos, decorrência da observação, ainda do navio, de um dos muitos surtos de febre amarela que acometiam naqueles anos a capital da República brasileira, a princípio o primeiro destino daqueles franceses; a família permanece apenas algumas semanas em Santos, mudando-se logo para São Paulo, onde será fundado o já citado colégio para moças da tia de Morize e ele conseguirá seu primeiro emprego, como ajudante na famosa livraria Garroux. Emprego importante, aparentemente, segundo breve comentário de Videira – tudo no livro é bastante breve -, por ter sido um lugar no qual Morize se punha a conhecer e ler as obras que chegavam para venda, sendo repreendido pelos patrões por isso; diante das escassas informações – peço que seja perdoada a cantilena, são escassas mesmo – e considerando-se a importância do contato com as letras na juventude para a formação de tantos intelectuais, é provável que Morize tenha, se não despertado, ao menos amadurecido seu interesse pela ciência nessa ocasião. Mas será em seu emprego seguinte, na Estrada de Ferro do Estado de São Paulo, que ele realmente se verá diante de uma dessas oportunidades fundamentais em trajetórias pessoais, oportunidades, momentos que se perdem nas estruturas e impessoalidades outras de toda história que se pretenda ‘ de longa duração’, e que só podem ser recuperados devidamente em biografias mesmo; será no desenvolvimento desse ofício que Morize conhecerá o engenheiro Eduardo José de Moraes que, vendo o potencial daquele jovem, seu interesse pelas ciências, irá recomendar a ele o caminho acadêmico mais imediato possível – e bastante lógico, na cultura bacharelesca da época: o curso de Direito no Largo de São Francisco paulistano. Morize ingressa no curso em 1880 mas logo o abandona, vindo para o Rio cursar a Escola Politécnica do estado – inexistia ainda uma similiar paulista, que seria fundada apenas em 1893. A partir daqui serão dois os lugares nos quais desenvolverá suas atividades, como estudante inicialmente e logo como pesquisador – isso ainda durante a vida estudantil – e professor: a própria Escola Politécnica e o hoje Observatório Nacional, então ainda Imperial Observatório do Rio de Janeiro, sediado no antigo marco da cidade, o Morro do Castelo. Morize se formará como engenheiro industrial na Escola Politécnica em 1890 – diversas doenças e decorrentes interrupções dos estudos explicam o longo tempo na graduação – e posteriormente conseguirá ainda as habilitações de engenheiro geógrafo (1918) e engenheiro civil (1920) pela mesma instituição, da qual se torna professor catedrático de física experimental já em 1898; no mesmo ano consegue ainda pela Politécnica o grau de Doutor em Ciências Físicas e Matemáticas. No Observatório Morize entrará como aluno-astrônomo – a preocupação com a formação prática se soma aqui com a escassez de funcionários, cabendo aos alunos parte das operações da instituição – em 1884, chegando à posição de terceiro astrônomo já no ano seguinte e se tornando astrônomo titular em 1890; ocupará o cargo de diretor da instituição de forma interina em diferentes momentos, tornando-se o diretor titular em 1908 – ficará no cargo até 1929, vindo a falecer no ano seguinte.

Nesses anos brasileiros há uma característica – aqui a fonte é novamente o trabalho de Videira – em Morize que permaneceria inalterável, uma constante própria mesmo de sua personalidade: uma calma, uma temperança que o mantinha afastado de qualquer das polêmicas tão típicas dos meios intelectuais brasileiros do período; ao contrário, ao invés de se desgastar em artigos e artigos para jornais, em textos normalmente apaixonados, Morize buscava exatamente a posição razoável do cientista, o convencimento pela razão, e uma razão aqui profundamente técnica, não filosófica – é assim, por exemplo, que combaterá o positivismo no ensino brasileiro, um aspecto de sua vida infelizmente apenas citado por Videira. O interessante nesse temperamento é que ele em dado momento – o momento do Morize estudante, ainda jovem (apesar da formação algo tardia) e sem cargo de maior importância – ele se confundirá com uma apatia aparente, com um descaso para com o cenário geral da ciência brasileira – no máximo teríamos um trabalhador dedicado de duas instituições públicas, em meio a certamente outros tantos trabalhadores dedicados, contemporâneos dele ou não; fazendo essa avaliação, é inevitável o contraste com o Morize posterior, das três primeiras décadas do século XX, o Morize diretor do Observatório Nacional, constante orador em prol da ciência pura no Brasil. Aqui a interpretação de Videira é interessante: Morize teria, podemos dizer, deixado para falar quando a oportunidade de ser realmente ouvido aparecesse; estrangeiro e tímido, mais valeria executar bem suas funções acadêmico-profissionais – e a forma rápida com a qual galgou a hierarquia do Observatório talvez indique exatamente essa dedicação, sempre lembrada por Videira – do que se pôr a falar com base em autoridade praticamente nenhuma que não a do discurso, a de uma razão presumida. A idéia é interessante, embora, como convém novamente dizer, não possa ser provada pela escassez de material apresentado; o que essas mesmas poucas fontes não nos permitem negar, porém, é esse caráter proselitista e combativo de Morize em seus últimos trinta anos de vida. Será com base em falas do próprio nesse período – bem como em comentários de Videira – que passarei finalmente para a análise desse proselitismo do cientista franco-brasileiro em prol da ciência pura.

Uma primeira fala que é analisada por Videira e cabe nesse trabalho é o discurso de Morize quando do lançamento da pedra fundamental do novo prédio do então Observatório do Rio de Janeiro, em São Cristóvão – onde permanece até hoje. Morize disse na ocasião que “(...) desenvolvimento científico, que constitui o mais elevado critério pelo qual se pode apreciar o grau de civilização alcançado por uma nacionalidade”, ou seja, reivindica para a ciência um papel que muitos costumam conferir à arte, aquilo comumente chamado de ‘cultura’, notadamente em sua expressão mais erudita; típico para um período de profundo cientificismo, nem tão típico assim para um país no qual – já foi comentado aqui, e é mesmo um tanto ocioso repetir – a cultura bacharelesca gozava ainda de status privilegiado, a despeito da crescente inserção política dos ‘técnicos’, notadamente médicos e engenheiros. Mas não é esse o ponto fundamental para nós nessa fala: o que realmente nos interessa aqui é a defesa que Morize fará da ciência pura. Diz ele: “(...) não trepido em afirmar que todos os estudos, mesmo os mais abstratos, são de transcendente utilidade que infelizmente escapa àqueles que não possuem cultura suficiente.” Veja-se que Morize ainda não estabeleceu – como fará em breve, chegarei a isso no parágrafo seguinte – uma hierarquia entre ciência pura e ciência aplicada; está no momento interessado apenas em legitimar a primeira, dizendo que os estudos teóricos, “como todos os estudos”, têm a sua contribuição a dar para, como já vimos, a elevação da nacionalidade brasileira em seu “grau de civilização”. Aqui cabe ainda notarmos o discurso do técnico, que reivindica para si – e para seus pares, evidentemente – uma compreensão que transcende a dos demais mortais, que “não possuem cultura suficiente” para perceberem a pertinência de tal ou qual estudo que considerem mais ‘abstrato’. A mesma lógica se apresenta de forma ainda mais clara – e talvez mesmo grosseira, para certos padrões – no seguinte trecho: “Seja-me, entretanto, permitido observar que o critério de utilidade maior ou menor, especialmente em se tratando de assuntos científicos, é muito relativo, e depende em larga escala do grau de cultura daquele que se atreve a emitir o juízo”. Aqui temos em certo sentido a expressão, ainda que certamente não intencional, de um princípio caro ao liberalismo – a relatividade do valor, as diferentes valorações que grupos e pessoas atribuem a coisas, fundamental para a idéia e a defesa do mercado como instância reguladora do social – mas também encontramos, me parece, a reafirmação de uma superioridade que pode perfeitamente ser usada em prol de um governo de ‘técnicos’, um dos grandes temores do liberalismo moderno. Esse ponto é importantíssimo e será retomado na conclusão desse trabalho.

O texto seguinte citado por Antonio Videira indica exatamente a hierarquia já citada entre ciência pura e ciência abstrata, apontando, como o leitor certamente imagina, para a preponderância da primeira sobre a segunda: “O proclamar que a ciência pura deve ter a primazia sobre a aplicada não significa de forma alguma que seja esta destituída de valor. Muito pelo contrário. Se a primeira constitui um ideal muitas vezes inatingível, a segunda apresenta problemas mais numerosos e geralmente de solução mais fácil e que, por isso mesmo, ficam mais ao alcance de pesquisadores obrigados a gastar em trabalhos profissionais a maior parte do tempo”. A citação longa se justifica pela quantidade de informações pertinentes que podemos apreender daí; primeiro, Morize novamente começa clamando por legitimidade, no caso a legitimidade de uma hierarquia que, subentende-se, considera correta. Estabelecer essa hierarquia não é deslegitimar a ciência aplicada, pelo contrário; esta última extrairia sua legitimidade exatamente de sua característica fundamental, seu caráter prático, que permitiria ao pesquisador – a intenção é essa, parece explícito para mim – dedicar-se a ela diante da necessidade – já comentada por mim aqui – de trabalhar para ganhar a vida. Essa interpretação se coaduna com a visão de Morize segundo a qual o pesquisador de ciência pura teria como um de seus obstáculos no país a impossibilidade mais elementar e material de se dedicar como devido a seus complexos estudos, já que se via o tempo todo obrigado pelo Estado a produzir resultados práticos para o governo com aquilo que sabia – no caso de Morize, a participação na demarcação de terras, inclusive como integrante da Comissão de Limites com a Argentina, subordinado ao Ministério do Exterior. Ou seja: em um país pouco afeito a ciência – o que Morize não costuma dizer, talvez novamente pela sua condição de estrangeiro (aliada a timidez que lhe parecia ser característica e, claro, a uma estratégia), mas era citado com freqüência por seus colegas de classe e causa brasileiros – as ‘horas de lazer’ seriam os únicos momentos nos quais o pesquisador poderia se dedicar aquilo que realmente o interessa, para além das razões de Estado; se essa situação está dada, melhor que se faça uma ciência aplicada mesmo, ligada ao próprio trabalho no seu sentido mais estrito dos pesquisadores a ela dedicados. Mas é bom notar que a hierarquia não desaparece com a legitimação, e os termos o comprovam: a ciência aplicada apresenta ‘problemas (...) geralmente de solução mais fácil”. Ou seja: é pertinente, mas não atinge a complexidade das questões com as quais trabalha a superior ciência pura.

Agora – passadas as falas em busca de legitimidade, seja para a ciência pura, reivindicando sua utilidade, seja para a hierarquia entre os dois tipos de ciência – passo a um aspecto mais central a discussão que farei na conclusão, e que já vem sendo apresentada aqui. Trata-se de apontar como Morize defendia como fundamental a participação ativa do Estado como promotor da ciência pura. Como já vimos, para Morize a ciência é o indicador máximo da civilização de um país; a ciência pura é não apenas legítima como é superior à prática, àquela que costuma, pelo menos em algum grau e em alguns campos, receber a atenção do governo; a conclusão óbvia dessas duas premissas é que a ciência pura merece atenção caso se queira que o Brasil apareça no rol das nações civilizadas, o que a princípio se coadunaria com as intenções europeizantes da elite brasileira do período. Aqui não há espaço para o mercado, esse ente que aparentemente vinha relegando a ciência pura ao mais profundo descaso; o ente a atuar deveria ser o Estado, como aliás era exatamente nas nações civilizadas do mundo: “Nos Estados Unidos, onde o serviço meteorológico é opulentamente subvencionado pelo Governo[grifo meu], conseguiu colossal desenvolvimento...”. São palavras de Morize, tratando aqui de assunto que conhecia como pesquisador a administrador, a prática da meteorologia. Diz o intérprete Antonio Videira: “Morize pensava que, se esse país conseguiu se tornar o mais rico do mundo, foi porque soube reconhecer a importância da ciência pura, o que seria evidenciado pelo apoio governamental dado à ciência [grifo meu]”. A conclusão de Videira não se apóia em exemplo único: em 1916 Morize escreverá ao Ministro da Agricultura pedindo apoio financeiro para publicar a revista da Sociedade Brasileira de Ciências[grifo meu], ou seja, pedindo verba governamental para a publicação de uma revista editada por associação privada – a dita Sociedade, embrião da até hoje existente Academia Brasileira de Ciências; a mudança de nome se deu com Morize ainda vivo e ele foi contrário a ela, por parecer conferir um formalismo demasiado à instituição[3]. Nesse pedido Morize dirá: “Nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, por toda parte, tratam os governos de fomentar pesquisas e descobertas em todos os campos da ciência [grifo meu]”. Não sei se uma colocação mais explícita seria possível: temos aqui novamente o recurso ao exemplo das nações civilizadas – que o seriam, lembremos, exatamente por cultivar a ciência -, usado agora em correspondência a um Ministro brasileiro, certamente na expectativa de que esse destinatário não quisesse outra coisa para o Brasil que não se aproximar dessas nações em progresso e civilização, para o que deveria seguir o exemplo delas – investir na ciência, começando se possível pela verba pleiteada para a edição da revista. O trecho termina com mais uma longa frase que merece a citação na íntegra aqui, principalmente por ser a confirmação de algo já comentado, o ‘governo dos técnicos’. Diz Morize: “Naqueles países, os cientistas têm sido realmente mobilizados, formando conselhos consultivos, aos quais são submetidos as mais importantes questões cujas soluções dependem de conhecimentos especiais, raros nos Estadistas, aos quais é habitualmente confiado o governo das nações, devido a sua cultura quase exclusivamente literária e jurídica”. É certo que aqui não temos o governo dos técnicos em sua mais assombrosa expressão, na qual os técnicos se tornam eles próprios os governantes; essa idéia grassará em momento de crise do liberalismo, um pouco posterior à morte de Morize, a década de 30; na fala do cientista ainda há espaço para os estadistas, os homens da cultura bacharelesca; mas seria preciso que eles consultassem os técnicos sempre que o problema fosse, digamos, exótico demais para eles.

Cumpre, para terminar essa seção do trabalho, lembrar novamente a já citada autonomia, neutralidade que a ciência deveria ter em relação ao governo que a fomenta, bem como em relação a todas as forças e interesses político-sociais da nação. Nos estatutos de fundação da já citada Rádio Sociedade há trecho que diz: “a rádio Sociedade (...) não se envolverá jamais em nenhum assunto de natureza profissional, industrial, comercial ou política”.

***

Passo a um rápido comentário sobre as questões já citadas ao longo do texto que articulam a ciência pura de Morize – e a forma que ele considerava necessária para a sua propagação, a existência sob financiamento estatal – e o liberalismo. O primeiro ponto, aquele ao qual chegamos de forma bastante imediata – e já citado nesse trabalho – é o da ciência pura como algo para além das necessidades do mercado. Como Morize faz questão de dizer, sendo acompanhado aí por Videira, a ciência pura visa outros fins que não aqueles imediatos almejados pelo mercado. Se é intenção de tal empresa ou tal ramo de negócios a elaboração de um frigorífico mais sofisticado e funcional, para isso está aí a ciência aplicada, prática; será ela que se debruçará sobre possíveis novas espessuras para as portas do frigorífico, novos materiais, novas técnicas de congelamento do que nele fica armazenado; a ciência pura – lembremos, superior à aplicada – teria como único fim a busca pela verdade científica. O problema para o liberalismo aqui é óbvio: por que financiar algo que não responde aos interesses do mercado, pelo contrário, tem pretensões totalizantes de alcançar verdades inalcançáveis para os incultos mortais outros, que precisarão se contentar em crer nos cientistas e financiar suas pesquisas ‘puras’ acreditando que em algum momento surgirá resultado materialmente útil? É problema cuja discussão foi e é pertinente para alguém que se identifique com o liberalismo ou não, e que vai além mesmo das ciências propriamente naturais, cabendo também ao financiamento das pesquisas nas áreas de humanidades. As respostas liberais são diferentes e não cabem aqui; mas o problema é inegável, e Morize ajuda, imagino, a vislumbra-lo em dado momento histórico.

O segundo problema é corolário do primeiro: é a lógica dos técnicos presente de forma pouco disfarçada – e matizada, como já falei – no discurso de Morize; o ‘governo dos técnicos’ ainda estava longe de ser ameaça ao mundo bacharelesco no qual Morize atuou politicamente, mas surgiu no horizonte pouco tempo depois dele morrer, e não me parece absurdo considerar as falas que faz nesse sentido como indicativos de que essa lógica já existia. Ora, essa lógica vai diretamente de encontro ao liberalismo, que pretende exatamente tornar as decisões o mais individuais possíveis, mantendo um governo o mais limitado possível – algo que só é possível quando esse governo abdica de encontrar uma série de ‘verdades’ e deixa a cargo de cada indivíduo essa busca, ou mesmo o abandono dessa busca. Os técnicos estariam aí exatamente para encontrar essas verdades científicas e orientar a ação do Estado a partir delas.

Por outro lado, convém indicar que a lógica da ciência pura tem também, em certas situações – de autoritarismo principalmente – um aspecto bastante simpático ao liberalismo, pois, como já dito, procura uma autonomia não só em relação ao mercado – mas também em relação ao Estado. Ou seja, em um cenário no qual um Estado autoritário impinge ao cidadão a crença em certas ‘verdades’ científicas específicas – a experiência totalitária do século XX é exemplo disso – a prática de uma ciência desinteressada pode significar exatamente a prática de uma ciência não-ideológica e, nesse sentido, constituir-se enquanto um pequeno espaço – ou momento – no qual o cientista poderá gozar de alguma liberdade intelectual.

Felipe Svaluto Paúl

Dezembro/2006.

Bibliografia

VIDEIRA, A.A.P. Henrique Morize e o ideal de ciência pura na república velha.Rio de Janeiro: FGV Editora, 2003.



[1] Já que estou recorrendo a Wikipedia como autoridade a fim de mostrar a pertinência da divisão apontada e estamos falando de ciência, convém referendar a autoridade da Enciclopédia Livre – aparentemente fonte das mais discutíveis, dadas as características que citei – lançando mão exatamente de um estudo da prestigiosa revista científica Nature. A revista enviou para pesquisadores, acadêmicos, especialistas enfim, entradas, verbetes de duas enciclopédias, sem informar a eles de onde cada texto havia sido retirado: cada especialista recebeu uma cópia do texto da Wikipedia para certo verbete e uma cópia da entrada da mundialmente notória Enciclopédia Britannica sobre o mesmo verbete. A missão: identificar erros nos textos, de clamorosas falhas conceituais até detalhes. O resultado: foram encontrados quatro erros graves em entradas da Wikipedia, assim como foram encontrados quatro erros graves nas entradas da Enciclopédia Britannica; os textos da Wikipedia apresentaram 162 “erros, omissões ou trechos incompreensíveis”, contra 123 de mesmo tipo da Enciclopédia Britannica. A própria Nature considerou o resultado surpreendente, dadas exatamente as peculiaridades já citadas da Wikipedia.

[2] ROSANVALLON, Pierre. O Liberalismo Econômico. Bauru: EDUSC, 2002

[3] Não ignoro em absoluto que essa citação rápida evidencia uma lacuna no trabalho: uma discussão mais profunda – na medida da profundidade não muito significativa do livro trabalhado, como já dito inúmeras vezes – sobre como Morize se valeu dessa e de outras instituições – a Rádio Sociedade a ela ligada, o Observatório Nacional e mesmo a Escola Politécnica - para a defesa da ciência pura. De certa forma as citações espalhadas pelo texto contemplam em pequena parte isso, muitas delas tendo sido proferidas em contexto no qual aparece uma dessas instituições – o caso da fala quando do lançamento da pedra fundamental da nova sede do Observatório serve aqui como exemplo. Optei por não entrar mais nessa questão primeiro pela falta de informações presentes no livro do Videira, segundo por não contemplar exatamente a discussão que pretendo fazer aqui e, por último e talvez mais importante, por considerar demasiado para um trabalho que já vai ultrapassando o tamanho que deveria assumir.

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Domingo, Dezembro 10, 2006

O Liberalismo de Joaquim Murtinho*
(* Texto originalmente escrito como trabalho para o curso História do Liberalismo no Brasil, ministrado pelo Professor Fernando Faria na Universidade Federal Fluminense, segundo semestre de 2006)

A proposta desse trabalho é apresentar Joaquim Murtinho como um pensador liberal, o que a princípio pode parecer uma obviedade, ao menos para alguém que já tenha tido o mínimo contato com o pensamento do autor. Mas aqui há dois pontos a considerar: o primeiro deles é que as obviedades, exatamente por essa característica, tendem a não serem explicitadas; parte-se da premissa de que são verdadeiras aos olhos de todos e passa-se adiante – o vício é ainda mais comum no especialista, naquele que conhece ainda mais a obviedade e tende a considerá-la óbvia a um grupo muito grande de pessoas, ou, o que é ainda pior, a não considerar aqueles que desconhecem o fato tão claro como dignos de conhecê-lo. Qual a conseqüência habitual disso? O fato – ou o objeto, ou o enfoque, o que quer que seja óbvio – é ignorado, esquecido. Joaquim Murtinho, um profundo liberal, torna-se apenas mais um político da República Velha, usando aqui esse termo já há um tempo contestado; lança-se então do expediente de análise clássico do período, o submarxismo mais simplório, e Murtinho torna-se o que todo político seria então por excelência: um defensor das oligarquias, quando não ele próprio um oligarca. Que Murtinho era de família notável no Mato Grosso é fato que a biografia não permite desmentir; que era um aliado das oligarquias, entendendo aqui esse comportamento como costuma ser entendido – a adesão a certos interesses de um grupo dominante para além de qualquer perspectiva mais ideológica, flertando o aderente mais ou menos explicitamente com o esbulho da legalidade, com o crime mesmo, na defesa desses interesses – é coisa bem diferente. Numa leitura marxista mais razoável, é natural que Murtinho seja identificado com a classe dominante – não apenas pela sua extração social já referida, mas também pela sua atuação política, mesmo pelas suas idéias, que favoreceriam um liberalismo considerado como a política de acumulação por excelência da oligarquia brasileira do período. Aqui temos dois problemas: o primeiro se refere a leitura que esse marxismo faz do Brasil, da economia brasileira e mesmo do liberalismo, classificando a República Velha como fundamentalmente liberal, o que nos permite uma vasta gama de questionamentos – Como o liberalismo enquanto doutrina se articulou com as experiências históricas concretas, de sociedades políticas? Foram realmente liberais algumas dessas experiências costumeiramente apontadas assim pela historiografia, como é o caso da República Velha? Até onde liberalismo político e econômico são indissociáveis, na doutrina e nas práticas históricas desse ou daquele país? – que merecem uma consideração impossível de ser feita nesse espaço, livros e livros não seriam suficientes, como não têm sido, para esgotar a questão. Já o segundo problema pode sim ser discutido aqui, não apenas discutido – palavra tão cara ao academicismo, exatamente por indicar uma intenção de não afirmar nada, de deixar a questão em aberto, mostrando (no mais das vezes falsa) humildade perante os pares da Academia e aproveitando para procurar destruir o máximo possível de teses e reputações nas entrelinhas – como afirmando o caráter inequivocamente liberal do pensador, no que aparentemente não vou destoar de qualquer um que o tenha lido, comprando briga portanto apenas com aqueles que desconhecem o liberalismo e seus homens, pretendendo uma leitura histórica na qual a hipocrisia é a tônica das ações de todos que não daqueles simpáticos a ideologia desses analistas, eles também, evidentemente, de uma coerência entre pensamento e prática humanamente extraordinária. Enfim, feita a afirmação, não se vai perder de vista a especificidade, o individual, o que seria de um absurdo ainda maior que o habitual em um trabalho que discute doutrina e pensador/político explicitamente individualistas; Murtinho não apenas será identificado como liberal como o liberalismo de Murtinho será analisado como algo produzido por um indivíduo, fugindo a determinismos – sem deixar com isso de inseri-lo nas discussões maiores do liberalismo.

***
Joaquim Murtinho era um liberal. Pensou o Brasil sob a luz do liberalismo, ou ao menos sob a luz de um certo liberalismo. Um liberalismo, como não poderia deixar de ser, historicamente determinado; não há em Murtinho – não há nos textos analisados, difícil que haja em outros – discussões sobre a legalização das drogas ou a união civil homossexual, temas presentes no pensamento, nos livros e nas ações de liberais não apenas nesse nosso novo século, como também, pelo menos, na metade final do século que Murtinho viu nascer um pouco antes de seu falecimento. Não podemos adotar o anacronismo e pretender construir, como costumeiramente se faz com pensadores do passado, na Academia politicamente orientada inclusive, um sujeito visionário, um homem de capacidades tais que pairava sobre as convenções de seu tempo, sobre os temas que inquietavam os seus concidadãos e dava importância a aspectos ignorados por uma massa, mesmo de intelectuais, tacanha e incapaz de perceber a pertinência daquilo visto apenas pelo nosso pensador escolhido. Murtinho era – a expressão está batida exatamente por ser pertinente - um “homem de seu tempo”, um liberal de seu tempo.
E como liberal de seu tempo – a metade final do século XIX, a primeira década do século XX – Murtinho fazia suas reflexões orientado pelo que hoje se diz liberalismo clássico, doutrina gestada naquele que é apontado como o século do liberalismo – o século XIX, principalmente sua primeira metade, o que nos remete à discussão já aludida aqui e inviável para o escopo desse trabalho; o que nos interessa é identificar discussões presentes nesse liberalismo e também nas idéias expressas por Murtinho nos textos analisados. Os principais pontos desse liberalismo são os seguintes:
· O mercado como instância por excelência da regulação social, tema central ao liberalismo, cujas origens intelectuais são rastreadas em interessante livro de Pierre Rosanvallon[i] – remetendo a Smith, inequivocamente sobrevivente no liberalismo do século XIX;
· O anti-estatismo, praticamente corolário do ponto anterior, presente em diferentes formas e contextos, todos tendo por norte a supremacia do mercado perante o Estado como ente (espaço?) de regulação social;
· Uma determinada concepção de natureza, profundamente influenciada pelo evolucionismo darwinista, que transfere para o social, o econômico e o histórico, em particular e discutível apropriação, as leis observadas por Darwin no mundo natural;
· A idéia de liberdades e direitos fundamentais, remetendo também a uma idéia de natureza humana, aqui anterior mesmo ao aspecto “mercadista” do liberalismo, tendo suas origens mais profundas pelo menos no liberalismo contratualista lockeano.

São essas as bases fundamentais a partir das quais Murtinho trabalhará, derivando delas conclusões específicas ao caso brasileiro, posto que, longe de ser um ideólogo original – Murtinho não tinha nem mesmo uma formação educacional destinada a isso –, procurou identificar as especificidades brasileiras e trabalhar, na sua atividade política prática, subordinando o ideal a ser alcançado – esse sempre condizente com o liberalismo apontado – a essa lógica evolucionista também citada, tão cara à época e tão passível de ser aplicada a um país de história recente e visto como inequivocamente “em formação”.

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Passa-se agora para o ponto fundamental do texto, no qual serão analisados os textos e discursos de autoria de Murtinho, buscando-se o já apontado: identificar neles o liberalismo clássico, indicar as especificidades do liberalismo de Murtinho e procurar o diálogo que o político realizava entre esses dois campos. Para isso serão selecionados alguns textos do autor presentes no volume analisado para a apresentação oral[ii], em seleção que – novo lugar-comum, também necessário – não poderia deixar de ser precária, excluindo observações que certamente mereceriam consideração em um trabalho mais alentado. Pretende-se, porém, indicar as principais preocupações do autor, evitando-se a repetição que é um risco em pensador/político particularmente obcecado por certos objetos.
O primeiro texto selecionado, seguindo a ordem do volume, é o Relatório Apresentado ao Diretor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, 27-3-1878, de autoria de um Murtinho então professor de Biologia Industrial na citada instituição de ensino. Esse relatório é resultado de uma viagem feita por Murtinho e alunos a São Paulo, viagem que teve por objetivo tomar conhecimento das condições da atividade cafeeira naquele estado, ou província, como então se nomeava. No texto podemos perceber um Murtinho atento, técnico, profundamente descritivo e mesmo incansável, percorrendo no papel o trajeto já percorrido em milhas, nomeando e analisando as condições da produção do café em cada uma das várias fazendas visitadas. O quadro que Murtinho nos apresenta é o de uma atividade pujante, lucrativa, em momento no qual se via entre a manutenção do trabalho escravo e a tentativa de inserção do colono, principalmente estrangeiro, em cenário que via as técnicas tradicionais serem incrementadas cada vez mais pelo maquinário; temos aqui diversos temas que levarão Murtinho a reflexões mais profundas posteriormente, temas fundamentais ao seu pensamento e ação política: a questão do imigrante, a industrialização do Brasil e a produção de café; analisaremos em textos outros esses aspectos com maior densidade. Aqui o que interessa é recuperar a defesa explícita que Murtinho faz do livre-comércio, pedra de toque do liberalismo clássico, porém convenientemente adaptada às circunstâncias históricas nacionais e inserida na lógica evolucionista já aludida. Murtinho nos diz que é contrário à intervenção “constante e direta do Governo Geral na agricultura das províncias”, o que já nos deixa aberta a possibilidade de intervenções ocasionais e/ou indiretas; diz que nesse caso prefere “os sistema americano e inglês” do que o sistema francês, esse último sendo “de proteção a todo transe”. Explicitada essa preferência – ou seja, feita a leitura propriamente ideológica, a defesa daquilo que seria ideal – Murtinho parte para o pragmatismo, para a adequação: diz não existir ainda no Brasil “certo espírito de iniciativa individual” típico das sociedades americana e inglesa, o que demandaria uma intervenção do Estado na agricultura enquanto tal espírito não frutifica. Adequação feita, conclui ainda Murtinho com a observação de uma singularidade tão típica e ainda hoje presente em alguns discursos políticos[iii]: São Paulo, ao contrário do resto do país, não necessitaria desse auxílio governamental exatamente por ser província habitada por população na qual o “espírito de iniciativa individual tem-se levantado ultimamente de um modo esplêndido”. Para além da já citada adequação do discurso, outro ponto merece comentário: bastante comum aos liberais brasileiros era (e é ainda) esse elogio de virtudes supostamente típicas das sociedades anglo-saxãs, virtudes que as fariam tender ao liberalismo, ao capitalismo, à economia de mercado – em análises que misturam Weber (A Ética Protestante...), o pensamento liberal anglo-saxão – tomado por mais coerente, profundo e menos revolucionário e estatista que o francês - e a experiência histórica de Inglaterra e Estados Unidos. Murtinho repetirá isso em outros textos e é interessante o quanto esse ponto é importante para pensadores brasileiros desejosos de inserir o Brasil na modernidade capitalista[iv].
O texto seguinte analisado foi Arrendamento das Estradas de Ferro, de 1896, no qual Murtinho comenta proposta através da qual um engenheiro – Eduardo dos Guimarães Bonjean – pretendia arrendar as estradas de ferro da União. Nesse texto Murtinho explicitará a oposição já comentada aqui entre mercado e Estado: o primeiro como o ente que atende às demandas do público, o segundo como aquele politicamente orientado e economicamente ineficiente. Primeiro nós temos um arrolar de propriedades sob controle do Estado – “banco do Estado, estradas de ferro do Estado, montepio do Estado, caixas econômicas do Estado, fábricas do Estado (...)” – e a conclusão inevitável: “somos forçados a reconhecer que a tendência é para uma República Socialista, república na forma, na aparência, despotismo no fundo”. Aqui é interessante notar a semelhança entre o dito por Murtinho e a tese fundamental do clássico panfleto do neoliberal Friederich Hayek, O Caminho da Servidão: quanto maior a presença do Estado na economia mais próximos estaremos do socialismo. Aqui Murtinho e Hayek entendem o socialismo não exatamente como marxismo, mas sim como um sistema fundamentalmente oposto ao capitalismo entendido como economia de mercado. A semelhança entre as duas coisas, porém, é tal que os socialistas marxistas se notabilizaram e se notabilizam exatamente por defenderem o intervencionismo econômico do Estado, e as experiências socialistas ditas “reais” foram Estados economicamente planificados, exatamente o destino que Hayek temia para a Inglaterra do pós-segunda guerra – e Murtinho temia para o Brasil República. Mas esse é tema para outro trabalho; aqui nos interessa essa semelhança entre o nosso Murtinho de meados de fins do século XIX e o Hayek de meio século seguinte.
Nesse mesmo texto Murtinho irá ainda justificar a supremacia do mercado sobre o Estado através de argumentos tipicamente liberais, destacando-se – por ser menos conhecida do público – a idéia de que só o mercado tem condições de realizar os cálculos econômicos necessários para atender as diferentes demandas dos diferentes agentes do mercado – qualquer tentativa de centralizar e burocratizar esse processo através do Estado seria sempre inferior à dinâmica observada na relação entre consumidores e fornecedores, estes últimos orientados por um interesse individual – ver Adam Smith e a discussão de Albert Hirschman[v] sobre os interesses individuais e o bem coletivo, tema caríssimo ao liberalismo. Murtinho lembra ainda outro aspecto fundamental da ineficiência estatal, a orientação política que a ação do Estado tende a assumir: “Incapaz talvez por solicitações políticas de escolher os melhores traçados”, fala Murtinho sobre a ação do governo na construção das estradas de ferro, em claro exemplo do descompasso entra a lógica econômica do capitalista e a lógica política do Estado. Defenderá então Murtinho o arrendamento, sob a lógica de que as estradas de ferro estarão em melhores condições nas mãos daqueles que objetivam nelas o lucro individual – e tudo farão para obtê-lo – do que nas mãos de um Estado sem interesse imediato nelas que não o das suas clientelas políticas – aqui Murtinho se coloca claramente em oposição à oligarquia do café, remetendo a comentário já feito aqui, na medida de que foi precisamente essa a oligarquia a orientar os traçados das estradas segundo seus interesses privados.
Seguimos para a Introdução ao relatório do Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, 1897, relatório de Ministro que era exatamente o nosso Joaquim Murtinho. Nele o primeiro ponto que merece nossa consideração é a distinção feita entre indústrias “naturais” e “artificiais”: Murtinho entende aqui por indústrias naturais aquelas surgidas em atenção a demandas do mercado, ou seja, aquelas que surgem “naturalmente” e atendem a interesses sociais reais e verificáveis exatamente pelo progresso que essas indústrias fazem no mercado; por artificiais temos indústrias que não se sustentam, que atendem menos a uma demanda específica e mais a interesses políticos – hoje se diria “estratégicos” – de um Estado que traveste de nacionalismo a defesa de interesses de determinados segmentos capitalistas, mantendo empresas vivas apenas através do protecionismo, expediente fortemente rejeitado por Murtinho como um imposto absurdo decorrente de política econômica estúpida, nos faz importar “caro aquilo que podíamos produzir barato e produzirmos caro aquilo que podíamos importar barato”. Para além dessa leitura profundamente econômica, porém, há uma visão de mundo, talvez um certo ‘agrarismo’: “A supremacia do industrialismo poderia trazer-nos grandes males sociais, deixando-nos talvez a forma, mas fazendo-nos perder com certeza a substância da nossa liberdade”. Aqui Murtinho se refere apenas aos danos à liberdade decorrentes de um Estado orientado por centros interesses econômicos ou temos também elemento – em nada estranho ao liberalismo, presente por exemplo no pensamento de Thomas Jefferson, founding father da experiência nacional americana tão elogiada por Murtinho – constituído pela concepção de uma sociedade de proprietários agrícolas como a ideal para o florescimento da liberdade, um temor da concentração de capital e propriedade decorrentes das experiências industrialistas internacionais? É lembrar que o liberalismo sempre associou propriedade e liberdade e essa hipótese faz sentido no mínimo razoável. Ainda nesse aspecto Murtinho irá rejeitar os Estados Unidos como modelo – aparentemente havia defesa do protecionismo no Brasil baseada na experiência de industrialização americana –, primeiro por não considerar o protecionismo como fundamental para a industrialização do país, segundo por – retomando aqui ponto já comentado, mas acho que no caso convém frisar – por que nós brasileiros “não temos as aptidões superiores de sua raça”. Murtinho, americanófilo e em alguma medida racista, como tantos liberais foram e alguns talvez ainda sejam.
Outro aspecto interessante desse texto é a questão da imigração, já aludida aqui, que ocupa trecho razoável do documento. Murtinho irá advogar uma imigração “espontânea”, ou seja, irá rejeitar uma imigração promovida pelo Estado. Essa imigração é danosa do ponto de vista econômico – o imigrante é atraído com promessas várias, é vítima da propaganda, não encontra aqui o que esperava e volta para o país de origem, ou remete para ele tudo o que aqui consegue obter -, do ponto de vista ideológico – imigrantes em demasia estavam trazendo para cá suas idéias socialistas – mas principalmente do ponto de vista cultural, da construção da nacionalidade: novamente não somos como os americanos, “não temos o poder assimilador enérgico e intenso desse grande povo”. Ou seja: não conseguiremos assimilar os nossos imigrantes, que “permaneciam por muito tempo como corpos estranhos ao nosso organismo social”, constituindo uma ameaça a uma nacionalidade que, antes de absorver, acabaria por ser absorvida. Interessante aqui a semelhança entre o pensamento de Joaquim Murtinho e o do crítico literário Sílvio Romero, seu contemporâneo, sobre o mesmo tema[vi].
Mais um ponto que merece destaque nesse relatório é a questão do funcionalismo público: Murtinho novamente identifica nessa questão o germe do socialismo; estamos repletos de empresas públicas – Correios, Telégrafos, estradas de ferro – que não são lucrativas, antes, têm seus serviços subsidiados pelo Estado. Tal situação é apontada por Murtinho como bastante exótica: ninguém aceitaria que um determinado produto fosse pago a um comerciante abaixo do seu valor, mas aceita-se sem problemas que isso seja feito em relação a tais empresas, cujos serviços são prestados por custos inferiores aos de produção, estando elas – e por conseguinte o Estado, e o contribuinte – constantemente em déficit, algo animado por lógica socialista. Mas os problemas financeiros das empresas têm ainda outra causa, e ela reside em seus próprios funcionários. Há no país uma “tendência para o funcionalismo”, que “tem acarretado entre nós um desenvolvimento burocrático extraordinário, um dos nossos grandes males”. O serviço público é uma verdadeira droga, não no sentido de sua precariedade – embora nesse sentido também -, mas no sentido de um entorpecente, de teor viciante mesmo: “dir-se-ia que há ‘buromaníacos’ como há ‘morfimaníacos’, uns não compreendem a vida sem o emprego público, outros sem a morfina”. Não creio que algum cidadão brasileiro – ou pelo menos carioca, ou fluminense – não tenha o que dizer sobre a atualidade dessa tendência comportamental observada por Murtinho. Temos então um verdadeiro deslocamento da capacidade de mão-de-obra do país, desviada do setor produtivo para o burocrático, subvertendo o que deveria ser a lógica da burocracia: “em vez de uma classe de funcionários trabalhando para a Nação, teremos a Nação trabalhando para a classe dos funcionários”.
Último ponto a considerarmos no texto – lembrando aqui que há pontos e pontos a serem considerados, a seleção se deve a tentativa de produzir um trabalho que seja legível por pessoas que querem conhecer Murtinho, e não se especializarem nele – é uma afirmação um tanto perdida de Murtinho, em momento no qual já se encaminha para a conclusão, mas que acho conveniente lembrar aqui pela semelhança que tem com o já aludido texto de Hayek e com a concepção liberal clássica sobre a indissociabilidade entre liberalismo econômico e político. Diz Murtinho que “Todas as liberdades se ligam umas às outras; destruindo uma delas, comprometemos a existência das outras”; não é outra a concepção do panfleto de Hayek nem a de qualquer um que se diga liberal.
O penúltimo texto a ser analisado é a Introdução ao Relatório do Ministro da Fazenda, 1899, sendo aqui novamente Murtinho o referido ministro. Nesse texto há aspectos já comentados, e seguindo a proposta econômica em oposição à verborragia inócua tão comum a alguns trabalhos pretendo comentar apenas o que me parece o aspecto principal desse texto, já abordado de forma lateral no anterior, quando preferi não comentá-lo exatamente por achar as idéias de Murtinho sobre o tema melhor expressas aqui; falo da agricultura brasileira e especificamente da crise do café.
A interpretação de Murtinho sobre como proceder diante da agricultura já foi explicitada no primeiro texto aqui apresentado: o ideal seria uma agricultura livre do Estado, como de resto deveriam ser também as outras atividades econômicas; mas alguma intervenção seria necessária exatamente pela inexistência, entre nosso povo, dos valores que permitiriam o frutificar de uma agricultura independente. Interessante é que, como Ministro, posto diante de uma crise da produção cafeeira, Murtinho irá rejeitar os expedientes intervencionistas apresentados a ele como soluções ou ao menos paliativos para o problema; isso porque Murtinho considera a crise cafeeira como produto de vários fatores – a desvalorização do papel-moeda, levada adiante por um Estado irresponsavelmente emissor, a causa mais profunda; a atração de mão-de-obra e capitais exercida pelas indústrias protegidas pelo Estado, causa também importante – mas tendo como elemento causador mais imediato algo que pode ocorrer vez ou outra em uma economia de mercado, e que só pelo mercado pode ser sanado: um descompasso entre a produção e a demanda. Murtinho considera que o café se tornou um fetiche tal que começou a atrair praticamente todos os esforços, e foi sendo plantado em todos os lugares, mesmo em terras e climas desfavoráveis, como se a demanda por ele fosse infinita, profundamente elástica. Essa demanda não se mostrou assim, e agora até que os agricultores percebessem o problema e migrassem para outros plantios – paralelamente desenvolvendo propaganda do café nos mercados do exterior, projeto de longo prazo - os preços seriam baixos e os estoques encalhariam; qualquer tentativa de resolver o problema através do Estado – principalmente a compra e posterior queima do café por parte do Estado – só alimentaria a situação artificial, adiando a solução do problema. Ao Estado só caberia uma luta: buscar reduzir as taxas de entrada para o café em alguns países, no que obviamente teria que repensar também as nossas taxas em relação aos produtos estrangeiros – uma relação hoje normalmente vista como de troca e que Murtinho indica como decorrente de uma percepção por parte do Estado do quão danosos são os protecionismos.
Como último texto escolhi um já tardio, de 1905, o Discurso Sobre as Candidaturas de Afonso Pena e Nilo Peçanha a Presidência e Vice-Presidência da República, discurso feito por Joaquim Murtinho em banquete no qual a referida chapa foi lançada. Nesse texto Murtinho expõe os pontos do programa da chapa, declarando-a presidencialista, federalista, laica e livre-cambista. Três desses pontos merecem uma consideração mais detalhada aqui, ainda que breve.
Murtinho declara a coligação presidencialista; isso pode parecer óbvio, fomos presidencialistas durante toda a nossa história republicana, já éramos assim há alguns anos em 1905; sim, é verdade – mas é igualmente verdade que a defesa do parlamentarismo pairava, como ainda paira, constantemente sobre o cenário político nacional. Temos uma crise, ou mesmo nos aproximamos de uma, e surge alguém defendendo a idéia; há algum tempo a coisa não é explicitada por um notável, certamente como decorrência da crise moral profunda do nosso parlamento. Mas é esperar e ela certamente aparecerá, como aparecia ali em 1905; Murtinho sente então a necessidade de contestá-la, e é interessante notarmos a crítica que ele faz do parlamento monárquico brasileiro, exemplo mesmo de que o sistema nada tem de excepcionalmente digno: “os partidos tinham idéias tão mal definidas que o governo de um deles executava muitas vezes as idéias do outro”; é interessante notar que essa observação de Murtinho tornou-se absolutamente consagrada na historiografia sobre o tema, mesmo quem procura apontar diferenças de posicionamento maiores entre os partidos acaba se vendo diante da concretude da situação descrita por Murtinho, na qual um partido leva adiante o programa daquele que derrotou – o livro Tempo Saquarema, de Ilmar Rohloff de Mattos, aponta exatamente nessa direção[vii].
O aspecto do federalismo guarda também uma singularidade, novamente um momento no qual Murtinho percebe um problema que seria discutido profundamente pela historiografia posteriormente – sem ser nenhum visionário por isso, não vou trair minhas considerações iniciais; o problema foi visto por vários outros republicanos históricos, como Rui Barbosa. Ao defender o federalismo Murtinho diz: “Não nego, senhores, que na vida íntima dos Estados se tenham dado crises de difícil solução na atualidade; elas, porém, serão resolvidas cada vez com mais facilidade(...) e as chamadas oligarquias estaduais, isto é, o governo de grupos estranhos à vontade e à ação popular não são obra da Federação; elas poderiam ter imitação no governo da União, e elas floresceram exuberantemente em plena centralização democrática”. Ou seja, Murtinho percebe as oligarquias como um problema, mas não as considera como intrínsecas ao federalismo, antes podendo surgir em qualquer governo, como de fato surgiram e floresceram durante o regime monárquico. Elas fenecerão “à medida que a educação política for procurando um nível mais elevado” – educação política como fundamental para a república, outro elemento em comum com Jefferson e os fundadores da república norte-americana como um todo; novamente também a perspectiva evolucionista de Murtinho.
Também evolucionista é a leitura que Murtinho faz do livre-comércio: é ideal a ser alcançado, mas não algo que possa ser imediatamente implantado de forma absoluta: “Assim, senhores, é o livre câmbio, ele representa uma aspiração universal, porque traria grande soma de bem-estar a toda a humanidade; enquanto, porém, não houver o consenso unânime das nações, ela não poderá se realizar e somos por isso forçados a preparar e organizar a defesa da nossa indústria contra os ataques protecionistas dos outros povos”. Ou seja, novamente sem ser explícito quanto aos meios – como no caso da necessidade do Estado fomentar a agricultura -, Murtinho deixa claro que enquanto a defesa do livre-comércio não for universal o Brasil precisará se valer do Estado para proteger as nossas indústrias como outros países protegem as deles. O perigo óbvio desse raciocínio – sua circularidade – não é tocado por Murtinho, como não é tocado por aqueles que se valem dele ainda hoje.
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Considero concluído esse trabalho, que é nada além de uma apresentação ao pensamento de autor normalmente ignorado. Vários pontos dos textos comentados foram ignorados, textos inteiros do volume foram ignorados, e mesmo nesse volume o que há é seleta de uma obra que, se não extensa – nada ali é especificamente teórico, são discursos, cartas, introduções a relatórios, Murtinho não era especificamente um “intelectual” – certamente contém mais do que o apresentado no livro. Produzir um livro ou um trabalho, como viver, é escolher; considero que fiz escolhas razoáveis aqui e penso que aquele que ler esse texto terá uma visão bastante razoável do que pensava o homem público Joaquim Duarte Murtinho.
Felipe Svaluto Paúl
Novembro/2006
[i] ROSANVALLON, Pierre. O Liberalismo Econômico. Bauru: EDUSC, 2002.
[ii] MURTINHO, Joaquim. Idéias Econômicas de Joaquim Murtinho. Introdução, notas bibliográficas, cronologia e textos selecionados por Nicia Villela Luz. Brasília/Rio de Janeiro: Senado Federal/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980.
[iii] Refiro-me aqui a discursos vários em torno de uma supremacia paulista sobre o restante da nação, que não raro desembocam em defesas de um separatismo que chega a reivindicar, sem muito rigor histórico, a Revolução de 32. Ausentes por motivos óbvios da política nacional, de seus protagonistas pessoais e partidários, tais discursos são facilmente encontrados, em número razoável, em fóruns de discussão política na internet.Recentíssima eleição presidencial – na qual o mapa brasileiro foi mais de uma vez divido por voto em análises de comentaristas políticos, criando o fenômeno dos “dois Brasis” eleitorais – motivou várias manifestações nesse sentido. Um estudo interessante – mesmo uma pesquisa qualitativa simples já daria o que pensar – seria procurarmos identificar o quanto os paulistas hoje têm ainda desse discurso que os tornaria ímpares, mesmo cultural e ideologicamente, do resto do país.
[iv] Em Protestantismo, Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil (Brasília: Editora da UNB) David Gueiros Vieira mostra o quanto diversos intelectuais brasileiros defendiam uma imigração protestante e anglo-saxã como solução para inserir o Brasil na modernidade capitalista, da qual foi afastado historicamente por um catolicismo avesso ao lucro e às liberdades naturais.
[v] HIRSCHMAN, Albert O. As Paixões e os Interesses, Rio de Janeiro: Record, 2002.
[vi] SCHNEIDER, Alberto Luiz. Sílvio Romero: o hermeneuta do Brasil. São Paulo: Annablume, 2005.
[vii] MATTOS, Ilmar Rohloff. Tempo Saquarema: a formação do Estado Imperial. São Paulo: Hucitec, 2004.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

UM POUCO SOBRE AS ELEIÇÕES – MIUDEZAS NEM TÃO IMPERTINENTES

Tive e tenho reservas em tratar das eleições aqui; não por ter assumido perspectiva derrotista – embora assuma sem problemas que considerava um segundo turno presidencial impossível, como consideravam também todos os analistas nem tão sérios. Tenho reservas simplesmente pelo de praxe, constantemente comentado por mim em discussões as mais diversas – mas principalmente em discussões sobre o aspecto político-ideológico brasileiro: a persistente ausência de um programa minimamente liberal nas eleições, em qualquer que seja a instância, em qualquer que seja o partido. Para não radicalizar, digo que há sim os poucos e bons, pingados aqui e ali: um de certa forma já clássico Afif em São Paulo, um infelizmente derrotado Gilberto Ramos no Rio, um extremamente surpreendente Bivar no pleito presidencial. Pois é, leitor atento e cidadão relapso: o inegavelmente tosco, simplório e parcamente alfabetizado Luciano Bivar – ser no qual votei com convicção há pouco mais de 24 horas – apresentou talvez o programa de governo mais liberal já visto desde a redemocratização brasileira, isso para não ser leviano e esquecer alguém de momentos anteriores. Ignorado pela mídia é óbvio que o fenômeno seria, o que não chega a ser exatamente demérito – perceber o ineditismo seria mérito da imprensa, mas o nível dela é tal que não pode nos surpreender em absoluto que não tenham percebido a coisa; a maioria ainda identifica neoliberalismo com FHC, o homem que não leu e não gostou do Consenso de Washington. O que realmente me chateou foi o fato de tantos liberais por aí – mais ou menos conhecidos, notório e excelente blogueiro, resistentes e muitas vezes seríssimos liberais orkutianos – tenham preferido também o folclore e a desinformação a análise de uma cartilha simples, que não demandava muito tempo de leitura, disponível há priscas eras no site oficial do candidato. Enfim, esqueceram Bivar; mas Bivar não esqueceu o liberalismo, mesmo que mal consiga pronunciar a palavra. O liberalismo apareceu nessas eleições a nível nacional e sim, isso me animou bastante, ainda que inegavelmente menos do que a pragmática felicidade pelo segundo turno conquistado.
Mas não é de Bivar que pretendo falar aqui; falarei de outro ser, em alguns aspectos bem diferente dele – bem falante, intelectualizado, articulado, toda a pinta de político talhado há tempos na arte da retórica que tanto faltou ao Bivar. Jovem, simpático, de discurso duro, enfático – e socialista. Apesar disso, um entre tantos: inegavelmente mais articulado que a maioria, mas não uma agulha no palheiro; cometeu sandice conceitual típica dos dele e não trouxe exatamente nada de novo a um rol de argumentos há muito conhecidos, embora certamente seja porta-voz privilegiado deles. Não mereceria um post – é cria das universidades públicas Brasil afora como tantos outros, a maioria deles já em deformação intelectual desde o nosso ensino médio profunda e inegavelmente doutrinário. Estou falando aqui de Marcelo Freixo, integrante do PSOL, presença na digníssima UFF na quinta-feira que passou. Mas, pergunta o leitor atento ali de cima, por que estou falando dele então, ser ainda longe de ser o primeiro entre os pares? Por um detalhe pequeno e fundamental: Marcelo Freixo, confesso que para minha enorme surpresa – impressionantes meus problemas em dosar direito otimismo e pessimismo -, foi eleito deputado estadual para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
Antes de demonstrar a nefandice dessa eleição, uma ressalva simpática: Marcelo Freixo é muitas coisas, e perigosas coisas, como se verá aqui em breve. Mas ele não é do mesmo tipo que a maioria dos nossos deputados eleitos, que não merecem outro adjetivo que não o de quadrilheiros. As quadrilhas são diversas e a cada nova conversa com cidadão fluminense você descobre uma nova, isso quando o seu ilustre representante – o seu, não o meu; aprendi o linguajar do antibrasileirismo – não consegue o feito de integrar várias delas simultaneamente, tamanhas as interpenetrações no pujante e auspicioso mundo do crime carioca. Nada sei sobre envolvimento de Freixo com a máfia dos caça-níqueis, das ambulâncias, do combustível adulterado, grupos de extermínio, tráfico de drogas ou corrupção policial. Nada sei mesmo, não há ironia alguma aí; isso pode até se dever ao fato de que eu simplesmente desconhecia o candidato até a referida quinta-feira, mas não acredito. É óbvio que não sou daqueles que imputa à esquerda qualquer exclusivismo moral, ou mesmo uma incapacidade inerente e programática, de natureza ideológica mesmo, que a afaste da corrupção – corrompendo-se vira automaticamente direita, numa interessante releitura de séculos de clivagem ideológica entre os dois campos maiores da disputa política. A minha leitura não é moral, é essencialmente mercadológica: a clientela política de Freixo é outra; ele não precisa se associar com o crime para conseguir votos – por mais que mereça reflexão o comportamento dele diante do tráfico de drogas, como falarei a seguir. Mas o fato é que o voto no candidato, o voto que o elegeu, foi um voto de legenda: o PSOL conseguiu nada surpreendentes – e absolutamente aterradores – 114.945 votos de legenda no Rio de Janeiro, segundo o UOL. Isso foi o suficiente para eleger Freixo, que individualmente obteve apenas 13.547 votos, concentrados em Niterói e Rio de Janeiro. Foi o suficiente para colocar na ALERJ, no meio dos quadrilheiros, um deputado explicitamente socialista – e isso está longe de ser algo positivo.
Quinta-feira, 28 de setembro, Universidade Federal Fluminense, aula de História Oral, professor Marcos Alvito. Aula interessante sobre tema interessante – para os outros, não para mim. Imigrantes portugueses por todo lado, pessoas animadas com seus entrevistados, professor com a empolgação – e a organização, e o bom humor – de sempre. Eis que no fim da aula ele dá o aviso: na aula seguinte dele, Realidade Brasileira – ou algo similar; título bem pretensioso para professor que é, apesar de inevitáveis (?) disparates eventuais, bastante razoável para os padrões uffianos – dois candidatos do PSOL se fariam presentes para falar sobre eleições e, em menor escala, seus projetos políticos. Quem me conhece sabe que eu tenho basicamente duas pretensões na UFF, pretensões que vêm se cristalizando ao longo do tempo: aprender o possível do pouco ensinado por lá e divulgar o máximo possível o ignorado liberalismo, sem considerar como “doença infantil” – pelo contrário, firmar posição nessa questão também – o anticomunismo, símbolo da unificação concretizada – pelo menos no virtual – através da Direita-UFF. Fiel a essas intenções vou eu assistir ao que Marcelo Freixo – e Agnaldo Fernandes, ignorado aqui posto que saudavelmente rejeitado pelo eleitor – tem a dizer.
Há um genocídio (sic) em curso; esse genocídio recebe “suporte ideológico” da classe média; é genocídio da população pobre, negra e favelada – sim, Freixo não usa o esdrúxulo termo “comunidade”, ponto para ele, pelo menos estilístico; entrar e sair das favelas é coisa das mais corriqueiras e simples, a classe média – representada por estudante de jornalismo da PUC – não entra lá porque não quer, é preconceituosa, sustentáculo ideológico de genocídio; o caveirão é um instrumento para a perpetuação desse genocídio. Mais estrutural – é possível ser menos? – é a questão do capitalismo, neoliberalismo – cada dia mais sinônimos nas diatribes conceituais – e do socialismo como a alternativa redentora, o sol a brilhar para todos os desvalidos da terra. Foi basicamente isso que disse Freixo, em fala curta; atentem para “genocídio” e “suporte ideológico da classe média”: a turma ali não atentou. A despeito da alienação reinante – visível para o experiente observador político já nas expressões e burburinhos ao longo das falas, previsível pelo curso superior dos alunos (cinema, fundamentalmente; o curso da alienação sofisticada) e confirmada pelas perguntas e colocações que fizeram – era de se esperar pelo menos uma pequena revolta ao som do termo “genocídio”. Não houve; mas era mesmo de se esperar? Vamos relembrar alguns genocídios da nossa História: o termo é recente e faço questão de fugir de anacronismos e polêmicas propriamente acadêmicas; fiquemos com o nosso século XX e nossos genocidas por excelência: Stalin e Mao Tse-Tung. Os dois, de notória inspiração maxista-leninista – e que encontram ainda vários e nem tão tímidos defensores pelo Brasil, na UFF inclusive – mataram dezenas de milhões de pessoas numa sucessão de horrores que faria Hitler, o nacional-socialista alemão, berrar ensandecidamente de inveja. Calcula-se – e o cálculo é da esquerda francesa, no LIVRO NEGRO DO COMUNISMO – que Stalin, Mao e demais camaradas (Lênin, Trótski, Che, Fidel, Kim pai e Kim filho norte-coreanos, Ho Chi Minh, Pol Pot) tenham matado 100 milhões de pessoas em menos de 100 anos, em experiências cobrindo boa parte da porção de terra do nosso planeta. Isso é genocídio; o que fez Hitler com os judeus foi genocídio. Genocídio implica uma prática de extermínio deliberada, intencional, orquestrada; para Freixo, a polícia fluminense é genocida, ou pelo menos o instrumento de um genocídio. E ele disse que os presentes ali, naquela sala – a “classe média”, base social da maioria dos cursos da UFF – compõem o suporte ideológico desse genocídio, comparando a todos nós, na melhor das hipóteses, com os alemães que levantavam os seus braços trágica e pateticamente ou os milhões de comunistas que serviram ao terror mais macabro da história humana e hoje ainda são saudados por muita gente em todo o mundo. Reação? Nenhuma. Ninguém entendeu? Talvez. Mas essa falta de entendimento é propriamente por burrice – havia pessoas inteligentes ali, sei disso -, por desconhecer os termos do discurso político e a História – provavelmente – ou por estarem já plenamente anestesiados mesmo, por estar a classe média há muito apta, e mesmo desejosa, de comprar esse discurso? De expiar determinados pecados que ela crê ter cometido e cometer? De aderir a um discurso no qual aparece como “elite” – desde que possa jogar o termo para o vizinho eleitor do Alckmin, obviamente – responsável pelas mazelas do país há 500 uniformes anos? Pois é essa a grande questão: a classe média, salvo um ou outro bolsão – religioso, católico principalmente, em parte militar, em parte, pequena parte talvez, de um médio empresariado, um ainda tímido mas notório renascer de liberais – está entregue e pronta para absorver uma série de elementos do discurso socialista – incluindo esse da “culpabilização e vitimização” ao qual Marcelo Freixo associa o termo mais duro, que mesmo assim não causa reação: genocídio.
E não há exemplo mais claro disso – há sim, e são vários; mas fiquemos com esse por hora, é mais imediato e irônico – que a própria eleição do Freixo. Meu caro: você não foi eleito pelos votos dos favelados; não foi eleito pelos votos dos meus vizinhos do Méier, da massa de Nova Iguaçu, do comerciante de Madureira, do vendedor de peixe de Caxias – não ignorando aqui a presença da abertura ao seu discurso em todos esses grupos, é notório que ele tem um poder de penetração ainda muito grande; mas é inegável o que te elegeu: o voto ideológico e de legenda no PSOL, fortíssimo aqui no Rio – e, veja só, caríssimo, um voto inegavelmente de classe média. Em dado momento das pesquisas eleitorais – e não faz tanto tempo assim, deve ter mudado pouco isso – Heloísa Helena atingia 26% entre aqueles com curso superior no Estado do Rio de Janeiro; o percentual era similar entre aqueles com mais de 10 salários mínimos de renda familiar; a candidata foi ovacionada e celebrada do outro lado do túnel – na socialista-caviar zona sul, notória por esse modalidade blasé e toda típica de esquerdismo, não raro associada ao esquerdismo-etílico dos celebrados botecos da nobre área. Foi chamada por Ancelmo Goés de “a queridinha da Zona Sul”, ou “a rainha da Zona Sul” – não leio as notinhas dele com tanta atenção assim. A depender dos favelados – que me perdoem eles se o termo soa pejorativo, às vezes soa para mim também; mas o próprio Freixo o usa...mudarei para “moradores de favelas” agora – o senhor ainda estaria nos movimentos sociais, ou será preciso me convencer de que só ensinou a eles o voto na legenda, e não o voto em você – o que seria fazer pouco da inteligência de pessoas que, e eu sei disso, são bem mais capazes do que se imagina. Repito, se é que você está me lendo – não seria o primeiro a achar esse texto pelo google: você foi eleito com os votos da classe média “genocida”, essa que não sobe o morro por “preconceito”, essa que vê a favela com maus olhos. Você foi eleito pela estupefação daqueles que assistiam ao debate na quinta-feira; você foi eleito pela traição da própria classe por parte de um grupo que, ao contrário de nós dois, não estudou História – e não sabe como os socialistas se livram das classes úteis assim que perdem a sua utilidade. Parabéns – não só para você, mas para todos os que construíram esse estado de coisas ao longo de tantos anos nos quais o debate brasileiro contou com a providencial – e nem de longe causada por uma interdição, mas por covardia nossa mesmo – ausência do liberalismo na disputa político-ideológica no Brasil.
Mas o genocídio, afinal, existe ou não? Não. Freixo não soube responder a pergunta fundamental que fiz – qual seria o interesse nesse genocídio? Os que nele morrem compõem uma clientela eleitoral profundamente explorada e importante – inclusive do Freixo, embora, como eu coloquei, sem dúvida alguma minoritária. A classe média que apóia soluções de força contra a população carente – que elege a família Bolsonaro, em parte um Álvaro Lins, um Itagiba – não é maior que a classe média da expiação nada católica que elege Marcelo Freixo, e mesmo ela sente sim, e profundamente, a morte de crianças de três anos em incursões policiais. Os que morrem nas incursões compõem ainda um exército de mão-de-obra fundamental para o funcionamento da cidade ilegal que tanto é alimentada por essa mesma classe média – cds piratas, jogos de computador piratas, tv a cabo ilegal, camelôs e suas falsificações diversas de objetos de consumo. A classe média, e nisso você acertou no debate, não vive sem a favela – porque não vive sem a ilegalidade; e a favela não vive sem a classe média exatamente pelo mesmo motivo. Ao contrário do que pensam ainda alguns discursos messiânicos – e o de Freixo flerta com isso – não há diferença moral significativa entre classes sociais no Brasil; o que há são diferentes formas de praticar uma imoralidade e uma corrupção há tempos coletivizada. Ao contrário do expresso em artigo do nosso deputado socialista, a percepção da classe média de que 80% dos moradores de favela estão ligados ao crime só erra em associá-los necessária e diretamente ao tráfico – e em esquecer que a proporção dos moradores do Méier ou da Barra da Tijuca envolvidos no crime é provavelmente a mesma. Na UFF mesmo um esquerdista me disse que faz sim “gato” para ter a sua tv a cabo; não vê problema algum nisso, é “caro demais”. Essa é a moral brasileira, seja o cidadão de classe baixa, média, alta ou imensurável. Ser ético no Brasil é cada vez mais trágico e difícil – e aqui retomo ponto citado acima: se é impossível associar Freixo com o tráfico – e eu acredito que seja mesmo – o candidato nos contou episódio no debate em que foi, pelo menos, leniente diante do poder que ele insiste em chamar de absoluto – e está praticamente certo nesse novo conceito sim. Freixo sobe favelas, conversa com rapazes com fuzis e desce, sem mais, sem pelo menos se preocupar em alertar uma autoridade para o problema que é, sim, óbvio, mas que nem por isso deve merecer nossa negligência – ou mesmo nossa aceitação às escondidas, como quando o candidato revelou que tal conversa poderia prejudicá-lo eleitoralmente, que ele não poderia aparecer na mídia naquela situação, o que preocupou partidários dele que estavam presentes no momento. Mas é como eu disse dias atrás: o presidente Lula sobe em favela e parece ignorar – ignorar no discurso, inclusive, quanto mais na prática – que naquele exato momento há menores de idade portando armas exclusivas do exército a metros dali, guardando um negócio de produtos proibidos pelo Estado, o ente que deveria deter o monopólio da força ostensiva – pois é, não sou um libertário...Como culpar Freixo diante disso? Como culpar Freixo por essa leniência, essa negligência, se o ministro Gilberto Gil precisa de autorização do tráfico para subir em favela carioca? Ora, culpando. A imoralidade está aí exatamente para que resistamos a ela; está aí para que devolvamos o um real do troco equivocado; está aí para não baixarmos as músicas pela internet; está aí para, nos pequenos gestos, nos diferenciarmos daqueles que sob a bandeira sempre vermelha de sangue fazem questão de nos acusar de genocidas exatamente por colaborarmos – não eu, vocês –, inclusive financeiramente, com a construção e desenvolvimento da favela como espaço privilegiado de certas ilegalidades brasileiras. Tenho sérias reservas a interpretações que associam liberalismo e cristianismo, isso é matéria complicada e merece leituras que ainda não fiz; mas uma coisa é certa – a lógica de um mundo pecador e do enorme esforço que o bom precisa fazer para não ceder ao Mal é de um palpável que imagino ser assustador para o mais descrente dos ateus.
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Falei do Gilberto Ramos mais acima. Pois é, Ramos perdeu – e perdeu de muito. Fiz campanha para ele, campanha individual, solitária, mínima – feita essencialmente nos últimos dias da campanha, quando entreguei algo timidamente alguns dos santinhos que ele, a pedidos, me enviou. Consegui pelo menos mais quatro votos para ele, número que, se conseguido por todos os outros eleitores, talvez ainda não fosse suficiente para elegê-lo – mas o deixaria bem melhor do que os trágicos menos de nove mil votos que ele conseguiu. Trágicos por que? Por que Gilberto Ramos foi O ÚNICO CANDIDATO ASSUMIDAMENTE LIBERAL a concorrer no pleito fluminense, ignorando aqui o Bivar – que, a despeito do programa, não chegou a mencionar o termo liberalismo uma só vez. Ramos é membro do Instituto Liberal e sempre foi defensor de premissas básicas da ideologia: Estado bastante reduzido – não o “reformado” social democrata, mas sim um reduzido mesmo -, respeito pelos direitos individuais e pela ação reguladora dos livres agentes do mercado. Como já dito acima, essas idéias estão muito distantes da realidade do eleitor médio carioca – enquanto o voto ideológico socialista-caviar é suficiente para eleger Freixo, o voto liberal não parece nem conhecer a figura de Gilberto Ramos. Isso significa que o brasileiro é socialista? Não – o pensamento do brasileiro médio é bem mais complicado do que isso, tem vários elementos e merecia estudo de algum pesquisador mais sério; mas é mais uma das inúmeras evidências de que Carlos Nelson Coutinho – para pegar um dos luminares da sandice – está plenamente equivocado quando diz que a ideologia neoliberal está disseminada pela sociedade brasileira. A “ideologia neoliberal” – ignorando aqui qualquer discussão mais calma da expressão – não é suficiente nem para eleger um deputado estadual no Rio de Janeiro.
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Diálogo no ônibus, hoje, motorista e cobradora:
_É, o Lula se deu mal, caiu do salto!
_ Ah, prá mim tanto faz, um como outro, é tudo igual.
_Nada, Lula se deu mal
_Ninguém tem pulso aqui para resolver isso não, o ruim agora é ter que votar de novo, queria que acabasse logo isso tudo
_ Se todo mundo pensar assim aí que a coisa não melhora mesmo

(pausa, partida no ônibus)
_Mas o que a gente precisava mesmo aqui era de um Fidel Castro!
_Ah, aí sim. Se vier alguém prá matar esse pessoal, aí eu defendo ele.

Esse é o povo brasileiro – o querido povo de Marcelo Freixo -, e não é muito diferente nas diversas classes sociais que o compõem. Esse é o povo, sim, sustentáculo do genocídio – mas de um bem diferente, de um ainda a ser engendrado, preparado, não por forças maléficas e conspiradoras, mas por uma série de trágicas circunstâncias que a maioria prefere ignorar – e a eleição de Lula e a clivagem entre “elite e povo” foi uma delas, circunstância que, com sorte, deixará de existir em breve.
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E que dizer de Jandira, a candidata que escondeu sua plataforma pró-aborto? Sim, pró-aborto, porque “abortista”, disseram-me por aí, é mais uma das palavras suprimidas...A novilíngua campeou nesses tempos Moluscos, vamos torcer para que decline agora. Mas voltemos: Jandira, a candidata pró-aborto, perdeu fragorosamente! É a demonstração da força do voto religioso conservador – católico e evangélico, talvez espírita – aqui no Rio. É fato que esse voto também ajudou Lula, Crivella e outros nefandos – além de se opor a ganhos evidentemente liberais, como a união civil de homossexuais. Mas nesse momento eu comemoro; respeito mulheres que defendem o aborto até determinado mês da gestação, até três semanas – não concordo, mas respeito; mas não consigo enxergar com outros olhos que não os do genocídio – veja só, Freixo, como a sua palavra se aplica em vários contextos que não o equivocado – uma proposta que permite que bebês de nove meses sejam abortados – e, literalmente, retalhados; procurem as fotos - pelas suas queridas mamães. Perdeu Jandira, perdeu o aborto, perdeu o genocídio – ganhou a vida.
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Esse fim-de-semana não teve apenas novidades, e não apenas eventos aprazíveis. As eleições nos revelaram nefandices várias – algumas surrais, ainda – ou principalmente por isso – que esperadas. Mas ao menos houve mudanças; pois há coisas que não mudam – não mudam, ficam presas em um conservadorismo estéril, patológico, numa indefinição eterna, em situação que transcende – embora estimule – quaisquer racionalizações. Por paradoxal que seja, esse conservadorismo talvez seja um ineditismo: talvez seja algo fundamentalmente novo, nunca antes experimentado por outro, um dos exóticos efeitos que a civilização pode ter sobre quem a leva a sério demais. Ou talvez isso seja só desculpa, desculpa; desculpa! A própria pulsão é, inevitavelmente, civilizada, ou mesmo civilizatória. Há códigos e regras para ela, bem definidos, compartilhados, usufruidos diariamente – até pelos genocidas aí de cima. E há a impossibilidade, a inércia inexplicável, o drama reproduzido como farsa; não, eu não conheço teatro grego, mas fica bonito assim – e isso é algo que eu um dia ainda espero fazer, proporcionar alguma experiência estética, para além da reflexão simples. O resto? Desistir? Sei lá; há quem nasça para umas coisas apenas. Torturar pessoa que não você mesmo é coisa que, definitivamente, não temos o direito de fazer. Paciência? Talvez. Mas paciência é jogo que se joga sozinho...

Terça-feira, Junho 27, 2006

CONTRA O BRASIL?
Patriotismo. A palavra está na moda mais uma vez, como ocorre sempre em eventos esportivos; e isso não está ocorrendo apenas no Brasil, cuja identidade nacional passa inequivocamente pelo futebol ora celebrado nessa Copa – discute-se na Alemanha, com repercussões na mídia brasileira, o suposto ressurgir de um patriotismo alemão motivado pelo futebol, pelo campeonato possível, por uma seleção nacional que entrou no torneio algo desacreditada e que cresce, à sua maneira, a cada partida. Não vou entrar aqui nas discussões conceituais infindáveis que pretendem separar nacionalismo de patriotismo; isso é interessante para uma história das idéias que acompanhasse o desenvolver dos dois conceitos, com suas continuidades e rupturas, diferenças no tempo, no espaço, nos grupos sociais. Aqui as coisas são tratadas da mesma forma, e é com base nessa semelhança que pergunto: o brasileiro é patriota, é nacionalista? As respostas a essa pergunta são, como não poderiam deixar de ser, pautadas pelas ideologias daqueles que respondem. Aqui me interessa especialmente um tipo de resposta, que vai nos levar a uma reflexão sobre o fenômeno que realmente quero discutir nesse texto: o antibrasileirismo de certos brasileiros.
A resposta, bastante condizente e lembrada no momento, é essa: o brasileiro é patriota quando há Copa do Mundo, e em menor escala quando a seleção de futebol nacional participa de outros torneios e jogos. Resposta simpática, tem uma série de qualidades. É resposta que aparenta reflexão; indica que a pessoa fugiu das fáceis – e por vezes únicas possíveis e desejáveis, inimigas que são da verborragia - soluções que o “sim” e o “não” estão sempre dispostos a representar. Guarda ainda o notório vício intelectual de falar “do outro”, como se dele não fizéssemos parte – não por acaso eu usei “o brasileiro” acima; quem emite essa opinião costuma se colocar em outra posição, distante do brasileiro, como se ele fosse de outra cepa. Tomando o patriotismo como positivo, imaginando que o interrogador partilha dessa opinião, ele não pode se incluir entre os brasileiros que só demonstram o louvável sentimento nessa tão comezinha e menor situação que é a do evento esportivo – muito embora ele mesmo esteja longe de considerar o futebol como preocupação menor na sua vida. Eis aqui o que nos interessa: essa resposta evidencia o real propósito do meu artigo, que minha inabilidade quase falseou no parágrafo anterior. “O brasileiro” que só coloca a bandeira na janela quando da Copa é o brasileiro médio, o padrão, alguém que não nutre o sentimento como devido; isso evidenciaria alguma fragilidade do nosso país – é comum que a isso se contraponha o exemplo norte-americano, vulgarizado em filmes, da bandeira hasteada diariamente no quintal de casas suburbanas. Esse brasileiro não sou eu; eu me destacaria por um patriotismo freqüente, costumeiro, que eu obviamente não vou conseguir localizar em lugar nenhum – e espero que o entrevistador não tenha tempo suficiente para me perguntar sobre. O resultado disso é óbvio: a população que ocupa o território brasileiro é dividida em dois grupos: o meu – o dos reais patriotas, no qual eu posso simpaticamente incluir alguns amigos ou familiares, ou mesmo algum vulto histórico – e o outro, formado evidentemente pelo grosso da população...que população? Aqui a crítica vai além: uma população inculta, ignorante, sensual, fadada ao fracasso e o terceiro-mundismo eterno. Está formada a coisa, o antibrasileirismo dos brasileiros se evidencia.
Não que isso seja característica tipicamente nossa, pelo contrário; é comum que determinados grupos – notadamente aqueles que se consideram como pertencentes a alguma elite – procurem se diferenciar do grosso da coletividade; a nação, coletividade moderna por excelência – e coletividade compulsória e imaginada, lembremos – só poderia nos mostrar esse fato com ainda maior clareza. Hannah Arendt traz alguma erudição a esse texto, ajudando-me a ilustrar a coisa com um dentre muitos exemplos históricos; a autora discute em As Origens do Totalitarismo o fenômeno do nacionalismo, focada nas semelhanças e diferenças entre os três nacionalismos dos povos que conduziram a Europa no pós-revolução industrial: o “liberal” caso inglês, o complicado caso austríaco (vital para se compreender as raízes do totalitarismo) e o que nos interessa aqui, o caso francês. Nesse a autora analisa o pensamento do Conde de Gobineau, conhecido nosso pela importância que sua estada no Brasil Império teve na formulação da teoria racialista que o consagraria na história da infâmia humana. O Conde, diz Hannah, acreditava que era outra coisa que não um francês; ou melhor, considerava ser a parte sadia do povo ocupante do território da França. Seria o contestável nobre – pesam dúvidas quanto à real nobreza do Conde – um descendente dos germânicos, e mais, do próprio Odin; descenderia então da raça forte, dos conquistadores, daqueles que subjugaram o grosso do povo “francês” – que seriam antes os decadentes romanos mediterrânicos e agora comporiam o famélico e inculto campesinato. Essa teoria não era nova e já circulava na nobreza francesa há tempos, para horror dos “liberais” de hoje que parecem adorar um Antigo Regime, reis e toda a pompa ridícula que os acompanha; Gobineau atualizaria a coisa – procurando realmente racializar, através de uma certa Ciência, o que era então mera literatice – e criaria o delírio próprio da descendência de Odin. Há outro exemplo que merece ser citado, pois, embora igualmente motivado por um racismo científico – e igualmente permeado por uma crítica cultural – é diferente por estar mais próximo de nós e não identificar sequer algum estrato do povo como representante digno da nacionalidade, ao menos não explicitamente; essa deveria ser buscada no estrangeiro. É o que nos informa, dentre outros tantos autores, o senhor David Gueiros Vieira, professor da UNB, no livro O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. Ali David relembra fenômeno ocorrido no Brasil pós-abolição: tendo sido o grosso da população negra abandonada à própria sorte, colocam-se inúmeros ideólogos e pensadores da República a buscar soluções para o país; a solução pode ser lida tanto a partir de certo marxismo esquemático – buscamos imigrantes pois negros abandonaram as fazendas e a crescente lavoura do café os demandava – como a partir de uma leitura dos discursos produzidos há épocas pelos doutos da República que nasce, e que são repletos de teorias racialistas e culturalistas que denigrem e esculhambam o povo brasileiro, do qual, mais uma vez e obviamente, eles se distanciam. Para a maioria das leituras o prisma racial se sobrepõe ao cultural: o povo brasileiro seria mestiço e daí decorreriam suas crônicas e insolúveis deficiências de caráter: seria fraco, submisso, sensual em demasia, preguiçoso, desonesto e chegado a uma bebidinha. Para outras é o prisma cultural que se sobrepõe, e essa é a grande novidade do pensamento do autor, ainda praticamente desconhecida na Academia: o povo brasileiro seria tudo isso e muito mais não por ser mestiço – ou não só por isso -, mas por ser católico. A solução para os dois discursos, que se interpenetram, é uma: precisamos trazer imigrantes da Europa, e, se tivermos sorte e for possível, da Europa da ética protestante e anglo-saxã; se não der que venha pelo menos um portuga católico. Que fazer com o resto do povo? Havia quem acreditasse que essa população mestiça se degeneraria e desapareceria, como o próprio Gobineau; também havia quem acreditasse, como ainda parecem acreditar alguns dos nossos liberais-fascistas, que bastaria ignorá-los e sentar o porrete quando necessário.
Que procurei demonstrar até aqui? Que o discurso oriundo de determinado segmento de uma população – que se crê racial e/ou culturalmente diferente da restante – que denigre e mesmo nega a comunidade com outro, acreditando-se portadora de valores diversos dos desse, é antigo e já teve uma expressão profundamente radical, essa de negação mesmo, a circular em nosso país. Mas o leitor pode estar se perguntando se eu quero apenas dar uma aulinha de História, se não direi nada que trate do aqui e agora. Antes de tudo sugiro a esse leitor que pare de ler por aqui e não volte para o blog antes de repensar a vida – eu abomino tanto quem vê o passado com olhos idealizados e nostálgicos quanto quem é incapaz de entender as lições que dele podemos extrair; se esse leitor está fazendo agora um mea culpa e deseja continuar, eu revelo: o passado explica pouco o presente e menos ainda o futuro, mas nos ajuda a perceber, dentre outras coisas, as continuidades discursivas de algumas idéias que parecem se acreditar profundamente novas. Sim, leitor, o antibrasileirismo está aqui e agora.
“Em que lugar do mundo se encontra lixo no chão ao lado de uma lixeira? Em que lugar do mundo as pessoas falam tão alto? Em que lugar do mundo se despreza tanto a cultura? Em que lugar do mundo se condena o sucesso? Em que lugar do mundo não há espaço para debate? E quais desses países que os srs. pensaram como resposta é um país desenvolvido”. Sim, assim mesmo, sem a interrogação no final – como se a simples falha de digitação fosse um recurso estilístico ou a necessidade de evidenciar o caráter retórico da pergunta tenha sido grande demais. A citação é do Púlpito Conservador, um de meus colegas no Blogs Coligados, e faz parte de resposta ao Marco Aurélio. Resposta que não houve, já que marco cobrou exatamente o que falta a essa afirmação, o que falta a esse e todo discurso similar: a concretude. Em que lugar do mundo se encontra lixo no chão ao lado de uma lixeira? Eu, o ignorante, não sei; infelizmente só estive em um outro país que não o Brasil, a Itália dos Svalutos mil, e lá vi uma Roma bem distante da limpeza encontrada, por exemplo, na diminuta Scafa. Eu poderia dizer aqui que a sujeira é inerente a uma metrópole, e que canídeos dados a virar lixeiras também; mas não vou incorrer no erro que aponto...Prefiro dizer que simplesmente não tenho um dado sequer que me permita concluir que os brasileiros atiram mais o lixo no chão do que estrangeiros, e que isso é evidente mesmo ali, na boca da lixeira. Também não tenho dado que me permita mensurar a “condenação do sucesso” que seria específica das plagas brasílicas e sua suposta ausência ou fraqueza em outros povos; elemento diretamente associado a ela, a inveja, é pecado capital para religião surgida muito antes do Brasil. “Em que lugar do mundo as pessoas falam tão alto?” é outra coisa que não sei; Jô Soares, o comediante odiado por direita e esquerda – vejam o orkut e comprovem – começa vez ou outra seu programa comentando pesquisas exóticas, não sei se sempre verídicas, que cientistas teriam feito ao longo do mundo – e eu realmente não me lembro de alguma delas ter pesquisado o nível de decibéis que conversas de diferentes povos costumam produzir, na média...Talvez o Conservador Pulp possa financiar uma delas no futuro, não esquecendo porém de mobilizar um ou dois sociólogos que façam depois a correlação entre os decibéis e civilização. Também não haveria espaço para debate no Brasil, diz ele – e esse é outro dos pontos-chave do Olavismo, alguns passos apenas atrás dos 40 milhões de militantes comunistas. Ora, o que está havendo aqui não é debate? Não podemos nós dois escrever o que bem entendemos, não ficarão esses textos disponibilizados talvez para todo o sempre na internet? Alguma censura a isso existe? Olavo já não passou por alguns dos maiores órgãos de imprensa do país, de uma forma ou de outra? Não temos hoje n`O GLOBO o liberal-democrata Paulo Guedes, o Denis Lerrer, o Reinaldo Azevedo – além de artigos freqüentes do Kamel contra as cotas, a favor da luta contra o Terror, contra filme de Michael Moore? Não há um João Mellão no Estadão, um Nelson Acher na Folha, um João Pereira Coutinho na Folha Online, um Mainardi em uma VEJA que bate e bate violentamente em Lula há anos? Um dos inegáveis méritos do Olavo não teria sido exatamente o resgate desse espaço? Claro, sempre se poderá dizer coisas mil – que esse espaço não é nada se comparado com “lixos e lixos de esquerdismo simplório” nesses mesmos veículos etc. Essa discussão é outra, e não vou iniciá-la aqui; o que peço é que o leitor vá a um grande jornalão ou órgão de imprensa internacional – que não esteja explicitamente vinculado com uma agenda política, note bem – e veja se a proporção existente entre articulistas “de direita” e “de esquerda” não se assemelha – ou mesmo é inferior – àquela encontrada, por exemplo, em O GLOBO. O que nós não temos aqui, isso sim, são publicações explicitamente voltadas a uma direita – e a triste falência da Primeira Leitura elimina talvez o único caso que poderia ser enquadrado aí. Isso é uma coisa, e como disse, merece post à parte e anos de reflexão; mas a ausência de espaço pressupõe, ou deixa no ar, uma outra coisa – uma intenção deliberada de impedir o debate, normalmente através de meios escusos, não sendo por acaso que sempre se fez presente acompanhada da idéia de revolução gramsciana nas reflexões do Olavo.
O Púlpito Conservador continua, em sua resposta ao Marco Aurélio: “Qual o percentual de brasileiros considero ‘corruptos, subdesenvolvidos, iletrados, ignorantes, mal-educados, pobres, frouxos e preguiçosos’? A grande maioria, que vota no Sr. Luís Inácio, porque se identifica com ele.” Aqui entra uma faceta interessante de certos discursos: o descolamento da realidade. O sujeito acaba por se prender de tal forma à lógica inerente de seu discurso, a uma busca por conseguir enquadrar cada pensamento dentro de uma certa posição ideológica estabelecida, de um preconceito, que o pensamento deixa de se submeter à realidade e passa a moldá-la de acordo com ele. Uma análise rápida da última frase da citação: “A grande maioria, que vota no Sr.Luís Inácio, porque se identifica com ele”.Vejam onde estão as vírgulas; estando onde estão, a única leitura possível da frase é que o autor considera a maioria dos brasileiros como dotados das qualidades enumeradas, e isso se evidencia pelo voto dessa “grande maioria” no “Sr.Luís Inácio”, o nosso popular Molusco – houvesse apenas a vírgula depois do nome do nosso presidente e a leitura seria de que a maioria dos eleitores do Molusco teriam as tais características pouco elogiosas. Seria menos delirante...mas não é o caso. O autor realmente parece acreditar que o fato de se votar em Luís Inácio, per si, evidencia as tais características no eleitor. É inegável que, em uma democracia, o povão não tem menos culpa que a Dona Zelite – e isso Reinaldo Azevedo sempre lembra bem; o povo merece Lula, e merecerá tê-lo de novo votando da forma nefanda como votará. Outra coisa inteiramente diferente é considerar que o voto em Lula define em si as tais características no votante; qualquer pessoa que tenha tido contato com eleitores de Lula, como eu ainda esporadicamente tenho, sabe que esse voto se orienta por coisas bem diversas do que uma imoralidade característica. Isso é óbvio para qualquer um que tenha os pés na Terra, e o leitor poderá dizer: mas o Conservador Pulp não sabe disso, Felipe? Eu direi que até deve saber, é realmente possível que saiba – o que até diminui o perigo da afirmação, mas não o elimina; não tenha o leitor a menor dúvida – e que busque exemplos históricos, literários e cinematográficos quem as tiver – que o portador de um discurso pode muito bem conviver com as contradições que a realidade evidencia. Um nazista pode perfeitamente saber que a menininha judia do colégio dele, ou da faculdade, não está imersa em nenhum plano de conquista global, não é racialmente inferior e que está tão integrada à cultura germânica – ou qualquer outra, no caso desses neonazismos mil, brasileiro inclusive – que a dele, e ainda assim isso não o impedirá de ser nazista. A mágica tem seu segredo exatamente no processo de afastamento da realidade, e quem quiser saber mais deve ler a judia Hannah já citada.
“Achava que não pegava bem falar para os brasileiros o tanto que somos mesquinhos, egoístas e pequenos e o tanto que os americanos são o contrário. Dane-se! Antes uma verdade dolorida do que um silêncio de pena e desprezo, que é quase o que estou sentindo pelo nosso país”. Esse é outro colega do Blogs Coligados, o José Gedankien. Aqui o antibrasileirismo encontra o seu correlato preferido na direita brasileira hoje – a americanofilia. Seguindo os passos do cada vez mais equivocado Mestre, essa direita parece realmente acreditar que a sociedade americana é “a única decente” no mundo de hoje; nem os sempre tão solícitos ingleses escaparam à crítica ferina do cada dia mais ridículo Olavo. Não serei ocioso, senhores; o texto já vai enorme como de praxe e vou poupá-los de repetir os argumentos. Gedankien não tem dados, não tem nada para além do legítimo preconceito, entendido como conceito a priori, anterior a qualquer empiria. Tem sim um caso – um caso, caso pessoal, que é cientificamente tão válido quanto qualquer caso pessoal pode ser nessa análise; e é por não considerar esses casos que falei aqui só brevemente da minha experiência na Itália, limitada no tempo e no espaço, discutida em outro artigo (“DA ITÁLIA”) no qual começo exatamente explicitando o caráter meramente impressionista que o texto teria. José parece morar nos Estados Unidos, ou ter morado; e isso realmente significa mais do que o meu único mês passado na Itália, e ele realmente pode tecer mais comentários do que eu – mas o caráter peremptório e genérico com que o faz definitivamente não foi habilitado por essa vivência. Dou apenas dois exemplos rápidos da minha vivência, obviamente dentro desse caráter impressionista e passível de ser criticado por qualquer um: uma das coisas que me marcou na Itália foi o transporte coletivo, por diversos motivos, sendo sem dúvida o maior deles a ausência de cobrador nos ônibus; sim, leitores, não há trocador nos ônibus italianos – há uma máquina, certamente abominada pelo nosso deplorável Aldo Rebelo, que torna todos eles desnecessários. Que faz essa maravilhosa máquina? Consiste em uma roleta automática, que espirra gás de pimenta em quem tenta passar por ela sem pagar? Soa um alarme ensurdecedor quando o italiano tente empurrar seu bambini por baixo dela? Não, nada disso: a máquina simplesmente autentica o ticket que serve como passagem de ônibus, ticket que você compra em outros lugares. Sim, é isso, leitor estupefato: ela autentica um ticket que você mesmo passa nela; se você quiser pode fazer a viagem inteiramente de graça, sentado confortavelmente como os outros passageiros. Existem sim cobradores, mas eles ficam em pontos de ônibus e podem ou não entrar no ônibus em que você está; o fraudador precisa contar com a sorte, pois sendo pego ele paga multa bem superior ao bilhete. O sistema é antigo e não vi nenhuma reclamação de italiano quanto a ele ou quanto a passageiros que burlam constantemente a lei; pelo contrário, não vi uma só pessoa não validar o seu ticket ao entrar no ônibus. Alguém diria: oh, que honrados e honestos italianos, isso nunca daria certo por aqui! Não daria? Não sei. Honrados e honestos? Meus antepassados, pessoas de país cuja cidadania orgulhosamente reivindicarei em breve, são conhecidos por boa parte dos norte-americanos não apenas pela macarronada – mas também e principalmente pela Máfia, que tanto sucesso fez e ainda faz no cinema hollywoodiano e que só teve sua influência realmente minorada na Itália quando da gigantesca Operação Mãos Limpas; a Copa mesmo nos apresenta uma seleção italiana que chegou terrivelmente tumultuada por um – mais um – escândalo de venda de resultados em seu futebol. Isso quer dizer o que, que são corruptos? Também não sei. Como não considero os brasileiros mais gentis do que os italianos pelo fato de que um de meus primos e sua namorada ficaram profundamente espantados quando eu perguntei, em um ônibus cheio e repleto de pessoas com pacotes mil nas mãos, se os italianos não seguravam os pacotes e bolsas de quem estava em pé nos coletivos – o espanto deles só foi maior quando eu disse que raríssimas vezes viajei em pé em um ônibus no Rio sem que alguém segurasse a minha mochila ou pasta, sem jamais o passageiro ter se revelado um nefando ladrão que tenha me roubado algo. Quem viu o Manhattan de domingo – e imagino que muitos dos leitores tenham visto – pôde perceber o descrédito da mesa em Nova Iorque e o mutismo do antibrasileiro-mor Mainardi diante de uma pesquisa que apontava, salvo engano, a própria cidade como a mais gentil do mundo. Caio Blinder chegou a citar antológico exemplo de um amigo que teria cedido o lugar em táxi – um dos concorridíssimos táxis da cidade, a se acreditar nos filmes – para uma senhorinha muito idosa que vinha lentamente se deslocando com andador...deixando o motorista absolutamente estupefato. E aí, o exemplo do Caio contesta a pesquisa? Claro que não, como um exemplo pessoal nunca contestará. Mas se por um lado a pesquisa pelo menos é uma pesquisa – logo pressupõe uma metodologia de alguma forma científica, por mais difícil que me seja imaginar uma pertinente ao estudo -, logo merecendo maior consideração que os comentários do Conservador Pulp, do Zé e também os meus, não há como negar que a desconfiança da mesa em relação a ela condiz com a minha própria desconfiança, nutrida por preconceitos em relação aos EUA e minha própria vivência de 20 anos como carioca persistente – que realmente torna difícil crer na existência de uma metrópole mais gentil que essa, mais ainda diante dos problemas que essa gentileza enfrenta para sobreviver.
Enfim, a que conclusão chegamos sobre o brasileiro, Svaluto? Se você está me perguntando isso é porque não entendeu nada; não pretendo chegar a uma conclusão sobre o brasileiro – pelo menos não assim, e certamente não aqui, em um artigo para blog. Não estou exatamente de acordo com o Marco quando ele fala da impossibilidade de se evidenciar um caráter tipicamente nacional, ou mesmo coletivo – para mim essa crença jogaria fora alguns estudos saborosos, embora muitas vezes equivocados, que tratam de mentalidades coletivas, de Weber até, para quem gosta – e não sou um deles, pelo menos até o momento – DaMatta, passando pelo Gilberto Freyre e Tocqueville. Mas não tenho dúvidas da dificuldade desses estudos e dos erros nos quais o próprio Weber incorreu, exatamente pela dificuldade de se mensurar empiricamente a tal ética protestante e sua real importância. Foi complicado para Weber, mais complicado ainda será para nós, até o momento meros blogueiros com alguma cultura; e eu prefiro me eximir da conclusão do que idealizar um povo por conveniência ideológica e depreciar o meu por conveniência estilística. Fazendo isso eu só daria razão ao dito antibrasileiro e estúpido do falido Mestre Olavo, que disse que ficar no Brasil 15 segundos (ou minutos?) o emburrece - aliás, isso dá até uma piada da qual não posso me furtar: e ficar 15 meses na Virgínia empobrece, my friend.
Dizer não ao antibrasileirismo não é dizer sim às nossas incontáveis mazelas ou aderir a qualquer brasileirismo igualmente nefando: é rejeitar as facilidades do pensamento e, ainda mais importante, rejeitar o preconceito.
Felipe Svaluto Paúl (Brasileiro orgulhoso de Gilberto Freire e revoltado com Gilberto Gil; admirador dos EUA de Thomas Jefferson e crítico dos EUA de Bush; futuro italiano avesso a óperas e profundo simpatizante de macarronadas).

Sexta-feira, Maio 12, 2006

V DE LIBERDADE
Há um fenômeno interessante nas plagas brasílicas: o surgimento de direitistas por todos os lados. Uns confessos, outros ocultos – in the closet, como diriam os moderninhos – e ainda aqueles que preferem ocupar a sempre simpática e vaga definição de livre-pensadores. O fenômeno em si não é ruim, muito pelo contrário; eu gostaria que aparecessem direitistas na proporção em que aparecem as imoralidades do governo Molusco. Mas seria leviano não considerar algumas características bastante negativas dessa renascença, negativas não apenas para a refundação de uma direita brasileira digna do nome como também para o próprio futuro da liberdade no país.
Quanto ao primeiro aspecto, lembro que essa renascença está longe de representar o renascimento de um pensamento sério, coerente e bem fundamentado; isso é esforço para poucos e nem sempre bons. O grosso dos direitistas que surgem, de certa forma, parecem responder ao meu desejo já expresso: são essencialmente figuras reacionárias, tomando aqui a palavra na sua mais direta e apolítica acepção: são nada mais nada menos do que uma reação imediata e pouco refletida aos tempos lulistas. Sim, senhores: só não vê isso quem não quer. O famigerado orkut tem defeitos incontáveis, mas vem se tornando a cada dia, como não poderia deixar de ser, um ambiente privilegiado para análises de uma parcela importante e ampla da nossa sociedade. E, a se considerar o orkut, a revolução liberal, como Aníbal, está às portas e ameaça a cidadela. Liberais pululam: escrevem em miguxês, trocam esses por zês, defendem a privatização imediata da saúde pública brasileira. Inevitável? Sempre haverá uma massa, como diria um bom leninista, a ser meramente reprodutora infantil de um discurso produzido por pequena elite? É melhor isso do que nada? Pode ser, pode ser: realmente me incluo entre aqueles que acreditam firmemente que a história é e sempre será uma história das elites – e só o esquerdista mais tosco não compreende o que realmente quero dizer com isso. A aristocracia natural de que falava Jefferson – o Thomas – definitivamente não era aquela que surgiu mais adiante nas sandices racistas dos oitocentos; era uma legítima diferença fundada no mérito, que parecia existir em todos os povos e deveria tornar a meritocracia um elemento fundamental de qualquer governo que se pretendesse livre; a “aristocracia do mérito” substituiria a “aristocracia dos títulos”. Como negar isso? Não conheço sequer um marxista sério que, confrontado com o problema – a existência, historicamente evidente, de diferenciações intelectuais profundas entre seres humanos – não recorresse a argumentos biológicos para explicá-la (biológicos, não racistas, pois falo de marxismo e não de Marx) ou acabasse por confessar a ignorância que por ora confesso quanto ao tema. Se é assim – e assumo que é – não seria natural que a coisa ocorresse também com a ressurgência de uma direita legítima, confessa e ideológica no Brasil? Sim, acho que seria – o que não deve em momento algum nos eximir da necessidade de “educar as massas”, por mais politicamente correto e arrogante que isso pareça, ou até por isso. E é aí que chego no bem mais perigoso aspecto da problemática que discuto: muito mais danoso que um estudante universitário que se considere direitista pois a greve do PSTU o impede de ir à praia no verão é o jornalista, formado, letrado e renomado que parece simplesmente não compreender que nos leva ao totalitarismo quando crê estar defendendo a liberdade.
Antes de passar ao jornalista em questão, apresento rapidamente o problema, que já discuti em outras oportunidades: há uma profunda confusão de referências intelectuais em parte dessa direita nativa. Personagem comum à direita virtual é o direitista que pretende ser algo mais do que seu correligionário de fim-de-semana descrito acima, sem que para isso tenha que se devotar a livros quaisquer. Iludido pela internet – que parece cada vez mais, pelo menos para certas pessoas, já ter abarcado todo o conhecimento da história humana – acha que pode compreender profundamente temas que vão de liberalismo e socialismo até política norte-americana, passando por ditadura brasileira e pesquisas com células-tronco, apenas com alguns cliques de mouse em busca das páginas “certas”, no que seria já uma espécie de cânone da vida virtual direitista – no qual o MSM ocupa não por acaso privilegiada posição. Surgem então toda sorte de frankensteins ideológicos, com a diferença de que seus criadores preferem virar o rosto para o outro lado e não assumir culpa alguma pelo que produziram. Há quem misture liberalismo, TFP e integralismo; quem justifique uma oposição à união civil homossexual lembrando que Adam Smith e os Pais Fundadores americanos nunca aprovariam a coisa; quem considere legítima a expulsão de Mulás que preguem o terrorismo na Europa e crie comunidades em homenagem a quem defende a guerra total e a conversão forçada do mundo islâmico ao cristianismo; há quem esteja lendo isso e não veja contradição alguma entre essas coisas; há quem esteja lendo isso e resmungando sobre o quão “inocente útil” eu sou; há mesmo quem já esteja me considerando comunista pelas afirmações feitas – e, por conseguinte, alguém que não merece o direito à liberdade de expressão, como já defendeu explicitamente o senhor Victor Grinbaum, como lembrei no artigo abaixo. Quem se diga liberal e defenda que um historiador, por ter negado o Holocausto, saia algemado de um tribunal. Confusão entre liberalismo e conservadorismo, decorrente de entendimentos precários e simplistas de ambos; confusão entre liberalismos e conservadorimos, incapazes que são de perceber as profundas diferenças internas às ideologias ao longo de séculos de desenvolvimento; confusão entre liberalismo e fascismo, sempre prontos que estão a ceder liberdades – principalmente as alheias – em nome de alguma luta épica para preservação dessas mesmas liberdades, reconfigurando espetacularmente o sentido do “liberdade é escravidão” orwelliano; reflexo também da ignorância do direitista de fim-de-semana, mas com o diferencial que se pretende imensa – ou mesmo a única – sabedoria, a própria chave para a compreensão do universo; não por acaso flertam tão facilmente com totalitarismos, reprodutores que são de visões totalizantes de mundo muito menos distintas do marxismo que repugnam. E esse o grande perigo: o fascismo travestido de liberdade máxima, que é capaz de conquistar, sem dúvida, pessoas mil para as fileiras da causa – mas não da causa do liberalismo, e sim de uma outra e muito perigosa força.
E é assim que chego, enfim, ao filme. Sim, senhores, falarei do V de Vingança, ou melhor, falarei de uma crítica ao V – o filme aqui é assunto lateral, e não seria comentado se eu não tivesse lido a crítica; aparece e será citado como contraponto ao verdadeiro alvo, a crítica que expressa de certa forma esse liberalismo fascista que descrevi rapidamente acima – e não, o termo não é forte demais, mesmo porque não pressupõe em nenhum momento (muito pelo contrário, até) que o liberal-fascista se reconheça como o frankenstein desajeitado e horrendo que é. No mais das vezes é exatamente ele, como já lembrei, o inocente útil, que trabalha para o fim das liberdades acreditando lutar tenazmente para preservá-las. Há muitos da espécie, mas no caso falarei de Michel Laub, ou melhor, da crítica que ele escreveu sobre o V na Primeira Leitura desse mês, na seção de críticas cinematográficas que até mês passado faltava a essa excelente revista.
Laub faz uma análise interessante em certos momentos do texto, é inegável, mas não quando trata do filme. Quando foge do tema central da crônica – ou melhor, quando parece eleger outro o tema central, trabalhando com uma estrutura para voltar-se poucas vezes a um exemplo dela, como eu mesmo faço agora e canso de fazer por aqui – Laub nos lembra aspecto interessante, ainda que óbvio, de certo discurso esquerdista: a incapacidade de perceber que Hollywood é, há muito, a principal produtora de críticas ao sistema norte-americano. Seria absurdo falar de sistema liberal americano, armadilha de esquerda na qual muitos dos tais direitistas caem com prazer enorme; mas vá lá, reconheço: Hollywood é a principal crítica ao sistema de um dos países mais livres do mundo hoje, se não o mais livre, a despeito do que tem feito certos correlatos ianques dos nossos liberais-fascistas. São produzidos anualmente toda sorte de filmes hollywoodianos em que esse sistema é posto abaixo das mais diferentes formas, revelando um povo profundamente amoral, mesquinho, carente de valor qualquer que não o materialismo mais imediato – sim, a direita religiosa tão citada em outros meios praticamente desaparece aqui – e sempre disposto a qualquer sordidez, do desfalque na firma a alguma guerrinha para júbilo das empresas armamentistas que financiam o presidente. A despeito da minha crença de que o povo americano possa ser assim mesmo – derivada da crença não menos otimista e quase cristã de que todo povo é hoje, se é que não foi sempre, pecador antes de qualquer coisa – é inegável que as colinas da Califórnia voltam muito mais as suas baterias contra seu próprio território – ou, melhor dizendo, contra os yuppies capitalistas selvagens da Costa oposta – do que contra povos e governos que estão longe, aí sim, de terem características positivas que eu mesmo reputo ao povo e ao sistema norte-americano. A despeito do caráter profundamente periférico de alguns desses povos – como o nosso – para uma cultura que sempre teve altas doses de provincianismo convivendo com altas doses de universalismo, é inegável o viés político dessa escolha, e um esquerdista que não o perceba precisa ir muito mais ao cinema ou ler muito menos Carta Capital. Até aí, Laub acerta; começa a complicar quando decide falar do filme.
Laub começa acertando, e é estranho que o acerto inicial tenha gerado conclusões tão esquisitas a ele: o elemento fundamental do filme é citado por Laub, embora não identificado dessa forma. É o “ditador que tem interesse em infligir medo à população”. E bem sabe Laub – ao contrário de esquerdista com o qual discuti recentemente a idéia de ditadura do proletariado – que não existe ditador sem ditadura ou ditadura sem ditador, seja esse uma pessoa apenas ou, com a alteração da definição que a modernidade consagrou e é expressa no conceito marxista, um grupo. Logo, conclui-se que o mundo de V é uma ditadura. E não duvido que Laub seja tão contrário a ditaduras quanto eu; e é por isso que o termo “terrorista” que ele aplica ao personagem “V” já é complicado. Remete-me a intensa discussão havida após o 11 de setembro sobre os conceitos de “insurgente” e “terrorista”; uma esquerda igualmente tola e covarde – pois isso é coisa que só a covardia das costas-quentes pode permitir dizer, embora se arvorassem a coragem de criticar os EUA, como se isso não fosse já, muitas vezes, a própria banalidade do Mal, vista em qualquer esquina – se permitiu considerar os terroristas como “insurgentes”, como se fossem judeus do gueto de Varsóvia em um levante contra o opressor nazista. Está e sempre esteve claro para mim – como também para Laub, imagino – que os insanos asseclas de Bin Laden eram apenas terroristas mesmo, e da pior espécie. Mas a essa conclusão só se pode chegar quando se determina alguns marcos que nos permitem qualificar o “insurgente”, e o principal deles – o mínimo necessário, mas não o único necessário – é que o insurgente combate uma ditadura, é alguém que apela à rebelião justificada lockeana contra um poder que lhe restringiu ou eliminou os direitos fundamentais. É claro que diferentes grupos e pessoas podem conceber “ditaduras” distintas, e é igualmente claro que alguém sempre poderia justificar o terrorismo tomando-o como insurgência contra uma certa “ditadura do capital” ou algo assim; mas toscos e malignos sempre existirão, e não é por eles que deixaremos de definir quando a rebelião armada contra o Estado é moralmente permitida, conceito fundamental a qualquer perspectiva liberal que se preze. Pois o que faz o V, leitores? Rebelião armada contra um Estado que parece estar no caminho entre o autoritarismo e o totalitarismo, como o filme evidencia – Estado que o próprio Laub definiu, como já vimos, como uma ditadura. Isso por si só desmonta o argumento de Laub e afirma o meu: V estava certo, é um insurgente e não um terrorista. Mas ainda é preciso dizer mais algumas coisas.
É preciso dizer ainda que as vítimas das bombas do terrorista, para as quais Laub reclama ao menos uma cena, são poucas. O parlamento explodido estava isolado pelo exército, em hora morta, donde conclui-se que ninguém morreu na explosão. V mata guardas, sim, é inegável – assim como mata agentes da ditadura; criticar isso seria como criticar o soldado americano que matou o soldado alemão na segunda guerra (que poderia ser tão nazista quanto o soldado de V poderia ser um simpático daquela ditadura) ou os oficiais alemães que tentaram assassinar Adolf Hitler em complô infelizmente frustrado, ou um cubano que saísse a matar agentes da polícia secreta do regime ou o próprio Fidel. Sim, Laub, aqui é preciso que o senhor mesmo abandone o politicamente correto que tanto acusa e compreenda o seguinte: para uma perspectiva liberal, hoje, Fidel é um alvo moralmente legítimo para qualquer cidadão cubano ou, em instância maior, para qualquer cidadão do mundo. Uma insurreição que rebentasse hoje em Cuba – e que não fosse, óbvio, para instaurar outro totalitarismo na ilha – deveria ser saudada e apoiada por todos os cidadãos livres do mundo, o que não implica desconsiderar as vítimas circunstanciais e inocentes que a sublevação necessariamente traria. Claro, é preciso sempre esgotar as possibilidades, mas elas já não estão esgotadas em Cuba? O cubano deve se contentar com os cartões de ração – como você parece querer que os cidadãos da Inglaterra de V se contentassem – e com a mais intensa falta de liberdades à espera, quem sabe, de uma morte de Fidel, que provavelmente nem porá fim ao tormento? Não é assim que eu penso, não era assim que pensava Locke, não é assim que pensa o liberalismo: a rebelião armada contra Fidel se justifica, explosões de prédios mil inclusas, assim como se justifica a rebelião no V de Vingança.
Sim, leitores, os senhores leram certo ali acima: Laub acha que os cidadãos da Inglaterra de V deveriam se contentar com o que ele chama de “distribuição desigual de laticínios”. Sim, leitores, os senhores estão imaginando certo agora, e entendendo o raciocínio torto de Laub: para ele o filme é uma crítica ao...capitalismo! A divisão desigual de laticínios aludida pelo cidadão é o fato de alguns, na Inglaterra, comerem manteiga e outros não. Diz assim: “É um pouco ocioso discorrer sobre o grau de ignorância do argumento. Há um momento em que a heroína, vivida por Natalie Portman, diz que não come manteiga desde criança em virtude de um racionamento de guerra ou coisa do gênero. O terrorista que a faz refém conta que roubou alguns pacotes do ‘ suprimento especial do primeiro-ministro’. A maturidade e o senso de justiça de V podem ser resumidos nessa cena de aparência inofensiva: como conseqüência da cruel distribuição de laticínios, bombardeia-se o Parlamento...”. Pois é, senhores, Laub não entendeu nada. Não se explode o Parlamento, Laub, por não ter a simpática Natalie Portman manteiga para comer, embora eu particularmente a ache, apesar de bonitinha, algo necessitada de um pouco mais de laticínios; a falta de laticínios é um elemento, um microcosmo, de um regime totalitário. O “suprimento especial do primeiro-ministro” não é uma geladeira abarrotada de manteiga comprada em um mercado livre; é um alimento negado à maioria da população e usufruido apenas por uma elite política privilegiada, igualzinho ao sistema de racionamento da Cuba de Fidel. E o homem que tem o Alcorão em casa por fins meramente culturais, Laub, é assassinado por sistema não menos intolerante do que aqueles que hoje grassam em países islâmicos –sistemas que o senhor fez questão de lembrar durante todo o artigo – apenas por satirizar o ditador em programa televisivo.
E é aqui que chegamos ao último aspecto do pensamento do Laub: tudo para ele parece histeria, mau-caratismo e maldade do filme diante do Ocidente; dedica-se por duas vezes no artigo a lembrar a situação terrível em que vivem os países muçulmanos – como se o leitor de Primeira Leitura não soubesse disso – com fim algo difícil de ser compreendido: o faz pela primeira vez no caso do Alcorão, quando considera a cena – a meu ver, acertadamente – como uma crítica velada a uma intolerância crescente da guerra ao terror. Na segunda apenas lembra que o filme não poderia ser filmado em um oriente intolerante, que obviamente não aceitaria as críticas feitas. Pois é, Laub, obviamente: o leitor da Primeira Leitura também sabe disso. Para que servem as comparações, então? Pouca coisa. Diz Laub que críticas e preocupações sobre a ação americana em relação às liberdades são justas, mas o que o filme faz é sórdido e covarde, moralmente equivalente a um Michael Moore. Ora, Laub, a proibição do Alcorão é algo tão distante assim? Revelo a autora de passagem já citada no texto, bem acima, sobre os países islâmicos: é Ann Coulter, polemista conservadora absolutamente popular nos EUA – e entre a nossa direita de liberais-fascistas – quem disse: “devemos invadir seus países, matar seus líderes e convertê-los ao cristianismo”, referindo-se aos países islâmicos. Vende milhões e milhões de livros nos EUA, Laub; é o Michael Moore da direita. Escrevo o artigo num dia em que se noticia o fato de que agência de segurança americana – a NSA – sabe os números discados por milhares de americanos, em uma operação não revelada ao público americano e que teria permanecido oculta se não fosse a matéria investigativa de um tablóide. E isso dias depois de ler artigo do conservador britânico Paul Hitchens no qual é descrita a orwelliana – kafkiana? – história de um comerciante inglês condenado por não vender suas mercadorias em quilogramas, preferindo as unidades tradicionais de medida inglesas – esse aqui vítima não dos liberais-fascistas, mas dos tecnocratas da União Européia, o que só faz mudar o projeto totalitário. O filme poderia até ser descrito como alarmista por alguém que desconhecesse esses dados, Laub, e tantos outros embutidos em Atos Patrióticos explicítos ou implícitos, que vêm surgindo por todo o mundo livre. Mas atribuir a ele “sordidez” e “covardia” é não ter absolutamente a menor noção do perigo que estamos evidentemente correndo.
Enfim, são 9 páginas de Word, senhores. Mais do que suficiente; quem quiser compre a revista – que eu sempre recomendo, aliás; seria até melhor se a assinassem logo – e terá melhor dimensão do samba do liberal-doido que fez o senhor Laub, como fazem direitistas mil internet afora. E entendam um pouco a dimensão do perigo que estamos correndo: é possível que nossos filhos venham a viver na primeira ditadura liberal da História, na qual certamente não se exibirá V de Vingança no Supercine.
Felipe Svaluto Paúl (Pronto para explodir o Palácio de Havana)

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

AMEAÇA JUDAICA À LIBERDADE DE EXPRESSÃO
A liberdade de expressão está ameaçada no Brasil e no mundo, e não é de hoje. O leitor médio talvez esteja acostumado com notícias sobre as restrições à circulação de informação em terras despóticas, algo fantasiosas e lendárias, não raro culturas e povos perdidos em um anacronismo profundo. Fala-se nas excentricidades genocidas da Coréia do Norte, país que o leitor médio nem deve conseguir localizar de primeira no mapa-múndi; fala-se eventualmente na ilha-cárcere do mais longevo ditador em atividade, uma Cuba que o turista não enxerga mais do que os nossos jornais pouco interessados; fala-se vez ou outra na China, o país para o qual não apenas o Google esquece momentaneamente seus arroubos de libertarianismo fingidos no Ocidente. O mais que se ouve sobre essas restrições vem do mundo árabe, que talvez supere a todos os exemplos anteriores em exotismo; quando muito, e aqui já avançamos além dos interesses e meios de informação desse leitor médio, fala-se no quanto o islamismo tem contribuído para, digamos, relativizar a liberdade de expressão na Europa. É esse poder do mundo islâmico - decorrente de um composto em que se somam relativismo cultural, oportunismo político e perigosa leniência - que hoje está em pauta por todo o mundo, inclusive na nossa imprensa. Evidenciar os perigos mais urgentes é o que deve fazer o cidadão moderno, sempre bombardeado por informações mil que precisam cada vez mais de um filtro adequado; mas ignorar os perigos hoje menores é permitir a eles o crescimento que faz de movimento de cervejaria um genocídio em um par de décadas.
É por isso que, já suficientemente abastecidos com as necessárias críticas aos que matam em nome de Maomé, é preciso atentarmos para os que proíbem em nome de Moisés. As semelhanças entre os dois grupos, certamente repugnadas pelos seus principais integrantes e inúmeros companheiros de viagem, são diversas e ficarão mais do que claras aqui. A semelhança entre as duas questões também: são duas questões que envolvem um dos princípios básicos e fundamentais da modernidade – a liberdade de expressão. Não é por acaso, portanto, que Osias Wurman se solidarize com os protestos muçulmanos no artigo que vou analisar aqui; faz apenas a ressalva de que eles não devem ser violentos ou recair no anticristianismo ou anti-semitismo – como se o recurso à lei feito por ele através da FIERJ fosse mais legítimo que o ataque às embaixadas; como se os meios tornassem o fim mais ou menos justo; como se a lei, e não a moralidade, fosse a medida máxima das coisas; como se o próprio povo que ele alega defender já não tivesse experimentado tantas vezes ao longo da história o quanto as duas coisas podem ser antagônicas.
Mas de que falo, afinal? Falo do fato de que o senhor Osias Wurman, presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ), decidiu pedir à justiça do estado a apreensão dos livros “Protocolos dos Sábios de Sião” e “Mein Kampf”, editados pela Editora Centauro; e obteve sucesso, pelo menos passageiro. Não é a primeira vez que isso ocorre; já comentei em meu blog anterior o caso do editor gaúcho S. Castan, condenado em última instância pelo STF, depois de anos de batalha judicial contra grupos judaicos, que pediram a condenação do editor por publicar esses e tantos outros livros de temática nazista, anti-semita e revisionista. Defendi o editor e me vi acompanhado pela Primeira Leitura nessa luta; usaram eles os mesmos termos que eu usei, sem medir palavras: estávamos diante de um atentado à liberdade de expressão sustentado pela instância máxima do nosso judiciário. Houve quem me criticasse; o mais notório desses críticos foi o senhor Victor Grinbaum, que hoje colabora com site tão ridículo quanto ele mesmo, site que vê em coluna do fictício Agamenon uma perigosíssima peça de anti-semitismo. Essas são as críticas que engrandecem; não por serem construtivas, mas por demonstrarem que se vai no caminho certo – não sei o que faria se um dia acordasse e lesse, na minha caixa de e-mails, uma mensagem elogiosa de alguém que considera Agamenon perigoso. Seriam as horas negras, que me perdoem outros politicamente estúpidos.
Apresentado o fato, passemos à defesa que dele faz o senhor Wurman, também já notório por ridicularias – remeto a outro texto meu, no qual o mesmo interpelava Hildegard Angel, a inócua colunista, por ter ela ousado supor que pixações anti-semitas surgidas na PUC poderiam ser obras de judeus mesmo. A suposição – que eu mesmo, na ocasião, considerei estúpida – bastou para a exigência de reparação por parte do JB, ameaça não muito velada de boicote ao jornal e acusações de anti-semitismo. Wurman tem currículo, como Grinbaum, e decidiu enriquecê-lo nessa sexta-feira dia 17. Vejamos o que diz.
A obra Protocolos dos Sábios de Sião é “uma montagem falsificada e mentirosa, encomendada pela polícia secreta do czar Nicolau da Rússia”; “obras que historiam as épocas mais nebulosas da História, mesmo que os personagens principais não mereçam ser lembrados, devem ser produzidas livremente. Mas este não é, certamente, o caso do livro ‘Minha Luta’, de Adolf Hitler, por ser panfletário, racista e indesejável”; “No caso das caricaturas publicadas do profeta Maomé, estamos lamentando a guerra entre os que defendem a liberdade de imprensa e os que desejam a preservação da inviolabilidade dos valores religiosos a toda força (grifo meu). É urgente achar um lugar-comum para ambos os pleitos, que convergem na essência: liberdade e religião.” O título do artigo também é significativo: “A difamação travestida de informação”.
A argumentação de Wurman é bem simples e pode ser explicada em poucas linhas: há informações que merecem circular e há informações que não merecem. Ponto. Tudo o mais ali é acessório – inclusive as justificativas de porque tal informação merece circular e porque outra informação não merece. Por que é acessório, Felipe? Por que, caríssimos, todas as plagas que listei no começo desse artigo, todos os ditadores maiores e menores que as coordenam, e todos os seus similares na história conhecida sempre tiveram na ponta da língua o mesmo que Wurman tem: uma justificativa belíssima para a proibição da circulação de tal ou qual informação. Tal informação, companheiros, é produto dos elementos contra-revolucionários desejosos de destruir nossa potência socialista com o apoio do estrangeiro; só fará destruir as mentes dos nossos povos em nome do vil capitalismo, e deve ser proibida. Tal informação, nobre príncipe, atenta contra a fé que seguimos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, e só fará espalhar as heresias que acabarão por comprometer a obra de Deus na Terra; proíba-a e estará mais perto do Altíssimo. Tal informação, arianos, é nada mais que vil propaganda judaica, e visa corromper corações e mentes da raça superior; proibi-la é vital para a sobrevivência de uma Alemanha sadia. Wurman está muito mais perto de seus inimigos e do horror do que certamente pensa; Wurman diz: tal informação, brasileiros, só fará aumentar o anti-semitismo em nossas plagas; proibi-la é contribuir para a segurança do povo judeu e da harmonia em nosso país. No que difere das argumentações anteriores? Em nada; como há quem concorde com ela, há quem discorde – exatamente como nos casos acima descritos.
O que acontece é que o nazismo ganhou uma aura de malignidade que talvez não encontre paralelo na História humana; nenhuma das falsificações e conspirações anti-semitas foi capaz de engendrar um ódio tão articulado, intenso e globalizado como o ódio ao nazismo que hoje existe. Isso se deve, sem sombra de dúvida, ao incessante trabalho judeu de sempre lembrar os crimes nazistas – trabalho que deve sempre ser louvado e seguido por indivíduos não-judeus. Mas essa merecida atribuição de malignidade nos fez perder de vista algumas coisas – e aqui também a culpa, nesse caso negativa, cabe essencialmente aos judeus. A mesma Indústria que movimenta as corretas lembranças do horror é a que movimenta o Agamenon anti-semita, a Angel anti-semita e a proibição de livros. É a mesma indústria que atribui uma malignidade quase sobrenatural a Hitler, indo de encontro não apenas a uma das grandes intérpretes do fenômeno nazista – a judia Hannah Arendt, que fez questão de evidenciar a humanidade e mesmo os aspectos malignamente banais do nazismo – como também ao próprio bom-senso – como quando a Indústria é movida contra filme que apresenta um Hitler humano e crível ao invés da satanização artificial de praxe. É a mesma Indústria que eleva ao status de Mal absoluto um mal que, graças às democracias, durou e matou menos que o mal comunista – esse ainda hoje bem visto e cantado em verso e porca prosa por cidadãos de todo o mundo. E esse Mal absoluto nos faz esquecer uma coisa: o nazismo é, antes de qualquer coisa, uma idéia. E idéias existem para serem destruídas no campo das idéias, por mais malignas que se apresentem a um ou bilhões de seres humanos. E isso fica mais do que evidente se levarmos ao extremo a argumentação de Wurman; ninguém, no caso, nos mostra o ridículo e perigo da coisa com mais propriedade do que o próprio Grinbaum já aludido: Grinbaum, também anticomunista, viu-se certa vez na encruzilhada: ora, se o comunismo é também enorme e genocida mal, porque ele tem campo livre mundo afora e eu defendo aqui a condenação do senhor Castan? Grinbaum não pensou duas vezes e explicitou em seu finado blog, por ocasião de um particularmente estúpido texto de José Arbex Jr: esse jornalista, para Grinbaum, deveria ser preso também, assim como outros defensores do comunismo.
Entenderam? Esse é o corolário natural da idéia que Wurman defende, embora ele talvez nem tenha se dado conta disso – ou, como firme defensor de seu povo, tenha simplesmente decidido passar por cima da questão. A partir do momento em que proibirmos determinada idéia de circular por tais ou quais critérios, a partir de tal ou qual meio – um STF, um referendo, um Partido, a força das armas – estaremos abrindo caminho para que outro grupo se valha do mesmo instrumento pretendendo cercear outra idéia. Se Wurman deslegitima a força física e legitima o STF, tudo o que faz é excluir um dos meios possíveis, mas mantém a porta aberta – amanhã um grupo anticomunista poderia entrar com representação no STF para proibir o comunismo; depois de amanhã, um grupo negro para condenar à prisão um ou outro opositor do sistema de cotas; amanhã, mudando os ventos e a Indústria preponderante, um grupo poderia legitimar juridicamente a proibição do judaísmo. Ou seja: a liberdade de expressão deixou de ser absoluta e passou a estar nas mãos de juízes – no caso – ou do Partido, das massas, da aristocracia ou qualquer outra coisa. É isso que queremos? É isso que quer o liberalismo, que um grupo de técnicos – ou, nos outros casos possíveis, a voz do Partido, das ruas ou de Deus – possam dizer o que podemos ou não podemos editar e ler? Não, não é isso que eu quero, não é o que quer o liberalismo. O que queremos é que cada indivíduo seja livre para escolher o que quer ler e que idéias quer seguir – exatamente porque sabemos que aquilo que nos aparece como o maior dos males pode ser o bem absoluto para outra pessoa, e vice-versa; exatamente porque sabemos que o Estado-Pai, o Estado que sabe o que seus filhos podem ler ou não, deve estar apenas no triste passado e nos piores de nossos pesadelos. Exatamente porque sabemos que um caminho bastante freqüente para se chegar ao mal é quando acreditamos mais firmemente estarmos fazendo o bem à toda a humanidade.
Um exemplo outro, oportuno mas triste, merece ser lembrado: o historiador David Irving foi condenado hoje na Áustria por negar o Holocausto. Há aqui no Brasil livro de deputado belga que faz um revisionismo das atrocidades de Stalin – que matou muito mais do que Adolf Hitler – que conta com texto na quarta capa assinado por um dos mais queridos (não por mim) brasileiros: o ainda hoje stalinista Oscar Niemayer. Pela lógica de Grinbaum, esse livro seria também proibido e seu autor correria riscos de, pisando no Brasil, ser encarcerado; Wurman, como vimos, parece ignorar as conseqüências do que defende. O fato objetivo é esse: há um homem encarcerado por defender idéias que são consideradas perigosas por outros homens; esse homem poderia ser um comunista e essas idéias, comunistas; poderia ser um liberal e essas idéias serem liberais; poderia ser um historiador que revisasse o passado Salazarista, a Era Vargas ou a ditadura militar brasileira. Enfim, poderia ser qualquer um que não concordasse com as idéias da ocasião, as idéias dos grupos de pressão mais fortes, do ditador ou dos magistrados. Voltamos cada vez mais ao pré-liberalismo – e não são só os islâmicos que estão nos levando por esse caminho.
Felipe Svaluto Paúl( a proud friend of freedom).

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